Vômito no vento

09 outubro 2016

Relatos douradenses #1

Um cidadão brasileiro anda pela calçada acompanhado de um amigo. Ambos vestem terno e gravatas caras. Eles têm penteados e cortes de cabelo bonitos. Um deles fuma. Mas, o outro não. São brancos, embora um tenha os cabelos encaracolados, o que indica mestiçagem, descendência de negros. O outro tem um nariz achatado. Eles são brasileiros, afinal. Sangue indígena, no segundo, e negro no primeiro, e nos dois ao mesmo tempo, correm em suas veias e são feitos por similares códigos genéticos. 

O cidadão mais esbranquiçado, de nariz aquilino e cabelo encaracolado, cafunga. Ele é o que está do lado da calçada, enquanto os dois caminham. Ao cruzar o local onde um mendigo dorme, ele chuta duas vezes, com o calcanhar, o corpo do homem, que esconde a idade avançada nas cobertas empoeiradas. O evento acontece embaixo da marquise de um banco internacional.

Dois quarteirões de distância daquele local, uma mulher indígena da etnia kaiowá segue seu rumo sentado numa carroça. Ela leva cargas de mandioca e algumas frutas. Sua mãe enrugada, de olhos firmes, lembrançosos, e dois filhos a acompanham. Um cidadão cruza com eles e, dentro de seu fusca, grita. Em seu grito de aparência raivosa ele impõe, exige, implora que eles vão embora, denegrindo suas identidades.

Um grupo com seis estudantes vão ao bar, naquele mesmo dia, já mais de noite. A lua cheia parece cantarolar. Para cada ouvido e para cada coração, a lua emana uma diferente canção. Nada mais comum! Trata-se da sintestesia encarnada na espécie humana. Os estudantes, afoitos por aventuras, descobridores de sensações, limitados a um espaço urbano e às regras do comodismo importado das gerações antepassadas, anunciam a loucura permitida. Uma permissão coagida pela moda, certamente. E cumprem a palavra. São, sobretudo, honrados com suas crenças. Perscrutam no vazio das bordas daquela existência fugas melhores, para, no fim da mesma noite, adequarem-se ao contexto material no qual nasceram e com o único lidam. Crianças de barbas e seios crescidos que vivem nas aparências das ilusões sob a égide da fé perpétua e inexorável de um naturalismo crucial aos sentidos da existência.

Numa casa de esquina, entristecido pelo rompimento de um ralcionamento, mas não tão amargurado quanto gostaria de estar, chora uma guitarra. Chora alto! Os vizinhos querem reclamar, pois é normal fazer isso. Mas, não conseguem. Choram juntos! Queriam eles poder tocar outros instrumentos e transformar o espaço em uma vibração de prantos. Mas não podem e sustentam os sentimentos que a língua é incapaz de anunciar. Eventualmente, bárbaros enfrentam problemas de língua. os bárbaros, os selvagens, sentem tudo, mas pouco são capazes de dizer.

Eis, portanto, o reflexo da angústia em um único dia de lucidez embriagada pelas crenças da complexidade não investigada. Sob o céu escuro daquele dia ninguem investigava nada. Todos acreditavam em tudo. 

Um cidadão, jovem, recém formado, com muito dinheiro, bateu um carro caro em um muro de uma escola. Não matou ninguém. Machucou-se pouco. Levou um susto.

13 agosto 2016

Quando a razão descaminha no panorama do mundo #1

O mal do século,
uma dor de cabeça!
O mal que não cessa,
cruel tormento régulo.

Eu não me importo, de fato,
se alguém vive ou morre.
Não ligo se o ser humano sensato
é o o instrumento que corre,
como pétalas apodrecidas ao vento,
como chuva ácida no deserto,
em busca de um quinhão funesto
das riquezas próprias do relento.

Na cabeça é a dor.
O que treme é a mão!
O buraco é um rancor
entuchado no coração.

Milhares! Milhares de anos viventes!
Sob as luzes das estrelas cintilantes
nós temos sobrevivido carentes
da vigília das certezas abundantes,
das certezas coerentes com o tempo,
com vicissitudes que fogem dum cruento
malogro do destino que nos afoga
diante de divindades que nada nos roga.

Os hábitos fluem!
Rotinas e angústias
embriagantes ruem:
entranhas espúrias!

De minha órbita ou ao meu entorno,
num trajeto que só eu posso observar,
os parentes, os amigos e daí o contorno
das pessoas desconhecidas, saem a trafegar
em rumos dispersos, mas harmonizados,
como se a vida fosse quadrados amontoados,
como se a vida fosse um sentimento só,
feito um assobio desprovido de muitos nós.

Tantos olhares ocos!
Milhares de loucos
num badalo mórbido.
Eterno instante sórdido!

Nossa cultura nos apresenta em reflexo incansável
que para todo nascimento é vindoura a morte.
Do ser humano cada pedaço e traço é inseparável
da existência pura de uma envoltura de sorte.
E ainda assim há tamanho sofrimento terreno,
há tantos cacos de discursos linguísticos,
tanta confusão de beleza estética de precisão
em cada ruga que perfaz cada rusga de emoção.

A mente se engana!
A dor dentro emana.
As pernas tropeçam.
Sonhos começam.

E a realidade pré-histórica era o próprio sonhamento,
um livramento da incapacidade de situar-se
puramente num quadrado feito de entendimento.
Por aquele tempo a maldade brincava de amar-se.
Agora, em precessão de encontrar-se,
o céu vira chão, a terra se esvazia,
assim como as crenças comem o grão
que a humanidade procurava com alegria.

Às vezes, há morte.
Ás vezes há ilusão.
Nos olhos há crença.
Há vontade no coração.


10 agosto 2016

Trecho #1 do documentário Zeitgeist.

(00h:42min:38s - iniciando a cena):

[SEGUNDO CAPÍTULO]: "Parte II: Patologia social"

[Quem começa com a palavra é o Dr. John McMurtry, professor emérito da Universidade de Guelph, Canadá].

"Alguém pode perguntar: de onde veio tudo isso? O que temos hoje é mesmo um mundo em estado de colapso acumulativo".

[TÍTULO DO ITEM QUE SE INICIA]:

"O MERCADO"

J. McMurthy continua: "Tudo começa com John Locke. Ele introduz o conceito de propriedade, e três pré-requisitos para o direito à propriedade e à privacidade. Os três pré-requisitos são: "deve haver excedente suficiente para os outros, você não pode permitir que a propriedade sofra danos, e, acima de tudo, deve integrar seu trabalho a ela".

"Parece justo: você combina sua mão de obra com o mundo e então você tem direito ao produto. Enquanto há excedente suficiente para os outros e enquanto não houver danos, e você evitar o desperdício estará tudo certo."

"Ele passa um tempo em seu tratado sobre governo, que desde então tem sido o texto canônico para a compreensão econômica, política e legal e ainda é o texto clássico estudado."

"Depois que ele apresenta os pré-requisitos e estamos quase nos perguntando se somos a favor da propriedade privada ou não, ele faz uma defesa muito plausível e convincente da propriedade privada - ele os abandona. Ele os abandona assim, em apenas uma frase! Ele diz: "uma vez que a introdução do dinheiro veio por um acordo tácito entre os homens, tornou-se então...", ele não diz que todos os pré-requisitos foram cancelados, mas é isso o que acontece."

"Portanto, agora o produto e a propriedade agora não são merecidos por nossa mão de obra. Não! O dinheiro compra mão de obra agora. Não existe mais preocupação se há excedentes suficientes para os outros. Não existe mais preocupação se estraga ou não, porque ele diz que o dinheiro é como prata e ouro, e ouro não estraga, e então o dinheiro não pode ser responsável pelo desperdício... o que é ridículo, não estamos falando de dinheiro, e prata, mas de seus efeitos. É uma falsa conclusão atrás da outra."

"Apenas a mais surpreendente trapaça lógica com a qual sai impune, mas que serve aos interesses dos detentores do capital."

"Então Adam Smith chega e acrescenta a religião disso - Locke começou com "Deus fez dessa forma, este é o direito de Deus" - e agora também temos o Smith dizendo "não só Deus...", não é exatamente o que ele diz, mas é o que está acontecendo filosoficamente, em princípio. Ele diz que não é apenas uma questão de propriedade privada... Isso tudo se tornou pressuposto, dado como certo. E que existem investidores que compram mão de obra - dado como certo. Não há limites para quanta mão de obra alheia pode comprar, quanto podem acumular, quanta desigualdade - tudo se tornou dado como certo".

(Zeitgeist - moving forward).

17 julho 2016

Olheiras justificadas

Era madrugada. Como de costume, quando embrenhado numa embriaguez tranquila, a altivez emergia. As sinapses eram ligeiras e eu parecia inteligente. Falei por cinco minutos. Dei outro trago. Vi toda aquele gente acreditando na ilusão de que eram exatamente o que se esforçavam para ser. Caí novamente na armadilha da sapiência tola. Com falta de humildade fui ataco pela solidão. O brilho das coisas se desvaneceu. A tristeza, do repertório da mesmice, atingiu-me no âmago da alma. Saí da festa, do salão, ainda bebendo o líquido alcoólico de um copo descartável, desconexo, tipificado pela intrínseca necessidade instintiva da minha bestialidade animalesca. Tudo quanto fosse objetificado era descartável. Minha razão desprovida de mim. Eis a gênese da minha noite mal dormida.

Logo seria manhã e eu, calado, notaria minhas olheiras. A mente, não o cérebro de fato, mas a mente, ela derretia...derretia apunhalada pela agonia, pela aflição e por um sofrimento anômalo.
Naquele dia eu, descrente de mim, deveria iludir-me também, como antes, havia pouco tempo, negava querer. E, tolhido pela tutela externa de uma conjunção muito maior do que eu, eu também me faria fantasia. Nada bom, nada ruim, apenas uma peça de um sistema impossível de se avaliar ou de se entender. Se notar isso é poesia, sou um poeta, mas um daqueles bem mórbidos e covardes, pois que nem consigo me libertar com alguma alegria.

O sopro do eremita #1

Abdico do sofrimento.
Extinguo o desalento.
Consumo toda a dor.
Enjoo do desamor.
Aflijo muito a ilusão.
Asilo, sim, a negação.
É um fato bruto e cabal:
as pequenitudes temperam
a vida prática e real.
Ó, você que canta sólido,
em solicitude dos que esperam,
talhe rotas sem dar um final,
colha e semeie os que esmeram.
Haja ciúme e haja desprazer.
Que venham as vinganças!
Mesmo com saúde que alude
ao paraíso vivo na Terra,
que venham as lambanças!
O sopro de brisas e vendavais
vez ou outra nos darão paz
nas baladas de qualquer era.

11 julho 2016

Andando #1

O poeta louco, americano,
com sua branca barba,
Whitman, o Walt,
feito o caminho que é a si,
comigo assoprando
uma nova era que se acaba
com tantas alucinações
e canções elucubradas...
lá, eu, aprumado e sincero,
vazo os dias com esmero
nas várzeas das sacadas
de infintas emoções.

No espaço do tempo real
de uma andança qualquer
notei o alvo do mal
que me abanou pela fé.

Cada cabeça que é viva
é potencialmente divinal
e salva a todos pelo aval
de qualquer artimanha altiva.

A mesquinhez nos inunda.
A ilusão sincera nos abraça.
A fúria que nos confunda!...
Se da morte não houver graça!

Eu procuro no mundo o furo
do tempo que não perscruto,
o cheiro da imundície que me atrai
como a escultura bela que cai
ao fim da ladeira e beira
à loucura do artesão choroso
que com lisura fez, amoroso,
sua mais bela obra em formosura.

Cada vazio reina no espaço
como o império do frio
que nos ameaça no encalço
da vida, feito um rio
tão largo e pomposo,
vital e profundo,
forte e poderoso,
que tem começo e tem fim
no seu fluxo de mim.

O rio, que sou eu,
nesta prosa caótica,
é o malogro do meu
soneto de semiótica
e é o boneco Orfeu
da raiz da robótica
que dos dedos das pessoas
será o triunfo…

O triunfo da humanidade é dar-se a si própria o fim e transmutar-se em sua mais bela criação, que ainda está por vir, já veio ou virá, feito cancão transcendental, dela toda, em mim para mim, com ela toda, de um fim a outro fim.

Numa linha torta
retidão é pecado.
Em conjunto complexo
de fios rizomáticos
a verticalidade é rara;
na bondade da coerência,
e na maldade da inocência,
rasuras de comportamentos
são as ranhuras dos alentos.

E a verdade é mecânica jamais vislumbrada,
nem tem nome, nem tem ânsia,
nem consome nada,
nem se compõe,
e vai e vai
camuflada em essências,
conquanto puder se esconder,
bem sorrateira,

das aparências.

04 julho 2016

A despedida do guerreiro quando se concretiza

O mundo é realmente louco e qualquer um sabe disso. Por essa conta, é sabido que a realidade é a cara da loucura. Como não seria? Mesmo uma criança já, queixosa, duvida disso. Oras! Haveria de não sê-lo, digo, o mundo, algo louco? Já não bem uma criança, pois que a idade estava nas últimas casas decimais, o velhote ainda se perguntaria, bem ingenuamente, como se fosse um infante enérgico, o que é que ele deveria fazer.

Ao fim da brisa do vento, do sol no crepúsculo, da lua no raiar da manhã, do galo que canta, do ânimo da madrugada embriagante e do último de todos os suspiros ainda restaria um profundo e indiscutível silêncio. Nem o tempo, nem as demais coisas da natureza respondem à pergunta.

O velhote não se abalava, realmente. Tinha na alma a vertente da tolice já calejada. De tão tolo que era, preferia cantar e assobiar a prender-se a repentes sôfregos. Do pesar da solidão à introspecção vital da soledade.

O velho cultivava algumas flores no jardim de sua casa. Além das flores haviam memórias inumeráveis. Cada uma preenchia um ponto no espaço de cada cômodo. E, além das memórias, havia o corpo do velhote que perambulava para cá e para lá. Os vivos mais novos que descendiam dele o visitavam, mas nem sempre. A companheira de relações carnais e espirituais partira para a derradeira viagem que todos um dia devem fazer.

Numa tarde serena alguém resolveu tocar a campainha. Para o velhote era algo com o que se surpreender. Ele tinha planejado beber meia garrafa de vinho. Talvez, ver um filme pornô. Ou outro filme, algo cômico e bobo. Iria fazer pipoca amanteigada. Tudo isso depois de ter regado o jardim. Mas, inesperadamente a campainha tocou. Era terça-feira. Nada de estranho era previsto.

Ao abrir a porta o velhote se deparou com uma moça. Ela não era muito baixa para o padrão de mulheres. Quase da mesma altura dele. Tinha longos cabelos trançados. Protuberantes maçãs arredondadas no rosto. Nariz aquilino e grande. Olhos vivazes, sobrancelhas fortes, grossas, bem desenhadas e maquiadas com lápis escuro. Lábios carnudos. Um sorriso exuberante, nada tímido. Vestia uma blusa branca amarrada com um nó nas costas. Calça jeans. Sandálias. Uma bolsa de couro, cor de pele, que lhe caía do ombro esquerdo até a cintura.

Sem delongas, a moça acariciou o pênis do velhote ainda dentro de sua bermuda de pano desbotado. Ele estava perplexo. Mas, não tanto, não o bastante para ficar afoito. A experiência da idade lhe dava um olhar afiado para detalhes que pessoas jovens e desatentas não percebem. Certamente, o sangue corava um pouco a face da moça e ela tinha receio sobre o que fazia, embora demonstrasse um apetite sexual típico da juventude. Algo que o velhote sentia, também. Mas, que intercalava mais facilmente com a razão derivada de sua senilidade.

Não houve muito diálogo. A moça foi empurrando o velhote para dentro de casa. Ela massageava o pênis dele, suas bolas e com a outra mão o conduzia para cada vez mais fundo da casa, encostando cada vez mais seu corpo dele. O velhote ficou excitado rapidamente. Ele perguntou, sem querer saber muito, o que ela fazia em sua morada. Será que não havia algum engano? Que menina descontrolada! Ou seria o caso de caridade? Ou de tara, consequência de um fetiche? Talvez, mistura de drogas? Algo psicodélico ou apenas relaxantes? O velhote mais pensava do que falava. E, para a moça, tudo corria bem.

“Um mês atrás”, a moça começou a falar, como que contando ao velhote uma lembrança interessante, “eu vi que a cena toda nos levaria ao abismo do ser”. Para o velhote, aquelas palavras não tinham sentido algum. Mas, a moça mesmo assim continuou. “É que, sentada na varanda, lá na minha sacada, eu encontrei a paz. Sim, estávamos tão perdidos. Mas, também estávamos tão inteiros. Inteiriços e completos é o que nós devemos ficar. Vem, entra em mim, senhor”.
O velhote não perguntou nada. Desconfiou que ela fosse uma prostitua. Suas frases foram lhe dadas por algum amigo, velho e ainda vivo, a fim de presenteá-lo com a diversão do corpo. E ele então a conduziu para a cama de casal em seu quarto. A garota estava exageradamente excitada. Sua vagina pingava. O velho a lambeu e a chupou calmamente. Ela a deitou de bruços. Dentro dela, não quis trocar muitas palavras. Mas, em seu ouvido, falando manso e baixo, chamou-a de deusa dos sonhos.

O ato sexual da penetração acabou rápido. Mas, a transa toda continuou ainda por horas. Deitados na cama, naquele quarto escuro, o velho e a moça conseguiram conversar com certa coerência. Aos poucos eles foram se compreendendo. Mesmo que, naquela tarde, ela não tenha falado nada de sua identidade social. Nem ele tenha se publicado oficialmente, os dois se conheceram o bastante para que ela voltasse.


Um mês depois a moça vivia e convivia com o velhote. Mais tarde, ambos fecharam aquela casa e levando alguns pertences foram embora. Nunca mais nenhum parente, nenhum amigo ouviu qualquer notícia do velhote ou da garota. Uma trama se desenrolaria noutro pedaço daquela dimensão. Mas, apenas pessoas estranhas teriam acesso ao desfecho.   

Para quando um amigo chorar

Eu conduzo pernas,
pois também dirijo rumos,
já que acalento aprumos
em rotas sempiternas.

Eu me azulifico
feito o céu profundo,
feito o vácuo-mundo.
Eu me coisifico.

Vejamos quem outrora navega
também com a própria lanterna,
notemos, indo embora, quem sossega
na dureza da solidão que enverga
o mais tranquilo dos gritos
ecoados no mais fundo abismo,
achado em estreiteza com o crivo
das retumbantes baladas do coração.

Não desassosseguemos.
Não há muito bem um instante,
então nem nos apressemos,
pois que lá ou aqui não rogamos
prontos a culminar em um fim
desesperador e pouco instigante,
seja o que ele deseje o que for.
E é aí que a coisa toda vai, assim
girando, girando e girando.

Tu és maresia
e plena calmaria.
Tu és um pomar
pronto a alimentar
qualquer alma
que ande sadia.

Tu, eu, nós e vós.
Eis a solução do imbróglio,
uma semente de nó
a semear um repertório
de saudosas cantigas,
de nobres cantigas
para saciar a bondade
da real amizade.

12 junho 2016

Observação sonora #1

Cafunguei a sobra do dia
Num alaranjado que reluzia
A refletir a alma em canção
Mórbida e sem vazão.
Para tão pouca filosofia
Desses dias resta a sorte
Que se finge de harmonia
Para esconder que dá morte.
Para tão poucas cores
Vivazes são as dores
Profundas e concretas
Que nos afunda nas metas
De cotidianos infinitos
Combalidos de tolices
Perseguidos pelos mitos
Atiçados por crendices.
Para tanta, tanta mediocridade,
que sobriedade nenhuma suporta,
quem dera pudéssemos ser veleidade
e, para cada cansaço, mudarmos a rota
deste oceano,
deste espaço misterioso e incerto
sobre o qual, profundo e pleno,
todos navegamos a céu aberto.

10 junho 2016

Terrorismo à insensatez

Primeira parte


Muitos jornais de outros países publicaram as opiniões de seus articulistas. Eram todas preconceituosas e, diga-se de passagem, defensora de um suposto racionalismo puro. Diziam que um brasileiro não poderia elaborar estratégias complexas. A formação de um adulto tupiniquim não lhe dava cognição suficiente para ser um criador, apenas mero reprodutor de obras já acabadas. O sujeito da pátria verde e amarela era uma lenda que acreditava em si mesma, uma máquina de copiar, sem alma.

Eles estavam enganados. As pessoas do mundo assistiram fascinadas e amedrontadas ao evento que se deu cuja previsão nem mesmo os generais mais preparados, nem mesmo as agências de inteligências dos governos mais poderosos teriam percebido. Um brasileiro provocou a nova revolução que abalou as sociedades humanas. Depois, é claro, ele deixou de ser brasileiro. Todos os gentílicos pátrios foram abolidos das instituições humanas. A vida se permeou de paz.

A história deste texto narra os momentos de transição entre um mundo bárbaro e um mundo utópico concreto e real.

O terrorista justificou seu ato como uma obra-prima. Uma obra de arte pós-contemporânea, trazida da dimensão do futuro para enobrecer as almas de todas as pessoas, que flutuavam perdidas nas mãos dos escassos oligarcas da fé; de uma fé em si mesmo, algo reservado e garantido apenas para poucos escolhidos.

O pseudônimo que ele ofereceu foi “Jerônimo”. Segundo o relato dos reféns daquela noite ele explicou como foi capaz de agir. Algo realmente a se admirar devido ao esforço e ao comprometimento com uma causa.

Jerônimo desenvolveu uma onda sonora que induzia à hipnose. Algo realmente incrível se dito assim. Mas, não podemos negar o fato. Todavia, ele não era capaz de colocar em transe qualquer tipo de pessoa. Segundo suas anotações, que foram apreendidas, ele definiu três categorias de vibrações mentais. Apenas duas sofriam seus efeitos. A terceira, que representava vinte por cento da população mundial e que, porventura, vivia nas grandes metrópoles globais, eram imunes ao efeito. Por isso, Jerônimo executou um plano complementar. Fez com que todos os hipnotizados misturassem soníferos em todas as redes de distribuição de água e, depois, prendessem com cordas, algemas e o que mais servisse a este fim as pessoas imunes ao transe.

Eis o evento: certa noite quase todas as pessoas do planeta Terra acordaram amarradas às suas camas sem se lembrar de como tinham parado daquele jeito. Exceto, é claro, nômades e pessoas afastadas das tecnologias de comunicação. A frente delas havia um aparelho de televisão, de rádio ou até mesmo um celular que transmitiam um vídeo em tempo real. Não havia trânsito, nem barulho de qualquer máquina. O planeta recobrou o seu som original.

O vídeo transmitia um auditório. A plateia era formada por silhuetas irreconhecíveis. Porém, elas logo foram identificadas. Um sujeito, que agia induzido pelas ordens dadas a ele, em estado de transe, entrou no palco, que tinha uma iluminação frouxa. configurando o ambiente em algo sombrio. O ator desconhecido se sentou na poltrona disposta no centro do palco. Pegou, uma a uma, as folhas jogadas no chão e as leu. Tratavam-se da explicação do ato.

Os senhores compondo a plateia eram as pessoas mais ricas do mundo. O ator pertencia à mesma classe, embora não soubesse bem o que fazia ali. Ele disse que em breve uma segunda transmissão entraria em cena e se amarrou a poltrona antes de retomar sua consciência.

O público do mundo inteiro fora forçado a ver cento e noventa e uma pessoas dentre presidentes, primeiros-ministros, ditadores e monarcas enclausurados num galpão sem saída. Aqueles políticos vestiam trajes de filósofos da Grécia clássica. Eles receberam a missão de responder com a sinceridade do fundo de suas almas a uma pergunta: por que há miséria no mundo? Caso eles não respondessem algo satisfatório seriam mortos. Caso respondessem seriam soltos para lidar com as populações de seus países.

O ato, chamado pelo seu criador de obra-prima, de arte social pós-contemporânea. As instituições jurídicas julgaram como terrorismo e ataque aos estados nacionais do planeta Terra. As imprensas nomearam de terrorismo à insensatez. A miséria, certamente, era o objeto de analogia do adjetivo insensatez. De todos os medos, de toda as angústias, assim como há vida e morte nesta existência, de todas as dores e aflições, de todas as covardias, não havia sentido para a miséria material e espiritual do mundo. O terrorista assinalou a história da humanidade como um herói. Ou, pelo menos, foi o título angariado por boa parte dos habitantes do planeta.

Uma nova era se iniciou. O Brasil ganhara uma representação titular tal qual a França, digna de uma força de liberdade. Mas, os países deixaram de ser estados nacionais. O mundo entrou num processo imediato e individualizado de unificação dos povos. O caos mostrava, mais uma vez, seu valor para a harmonia do universo, ainda que sobre a superfície de um pequeno grão de poeira estelar.



07 junho 2016

Conversa com bêbado - #1

Uma coisa chata. Manuel buscava a verdade. Indeciso, pois nenhuma ideia lhe entrava como certa, ele foi para um bar. Sentou-se e foi atendido por um velho de nariz embolorado e barrigudo. Quem visse Manuel lá notaria um sujeito bastante tranquilo. Ele, para ele próprio, todavia, parecia confuso e aquela confusão o abalava em exagero. Olhou para as pessoas que bebericavam suas bebidas alcoólicas ao redor. Todas elas pareciam contentes. Não havia ninguém embriagado, pois a noite mal tinha começado e frequentavam o bar apenas clientes costumeiros, de hábitos aconhecidos e experientes no trato com o fígado.

Eis que a cerveja foi posta à sua frente, na mesa. Encheu-se do líquido num único trago. Era copo americano, coisa pequena. Em dois goles foram-se dois copos em quantidade. No terceiro, Manuel passou a beber mais devagar. Novamente passou os olhos pelo ambiente. Tudo corria bem. Perguntou-se porque ele tinha ido a um bar. Por que não a uma igreja? Por que não a casa da tia-bisavó ou a casa da irmã? Refutou-se. Na igreja as pessoas têm uma verdade muito profunda. E é uma só.

Manuel não queria tal tipo de verdade. Mas ele não sabia bem o que queria, por outro lado. “No bar”, ele pensou, concluindo o raciocínio, “só há verdades, ninguém mente, ninguém perfaz suas palavras para acariciar a alma alheia, ninguém segura seus sentimentos por mera e ingênua bondade”.

Aos poucos os convivas, desconhecidos de Manuel, por certo, iam tornando-se bêbados. O indício dessa afirmação era evidente. Eles falavam mais alto, exaltavam-se com mais primazia, seus espíritos ficavam mais altivos e brincalhões, bem como também ficavam mais honestos, sem meias palavras, nem palavras que sobrassem. O sintoma da bebedeira preserva e publica sua essência desde as pessoas mais chatas e enfadonhas até as mais sedutoras e interessantes. Ninguém escapa a tais sintomas.

Manuel sentia-se também a tomar a vibração ébria. As cores dos postes da rua inebriavam sua visão. Deliciava-se ao sentir-se harmonizado com todo o fluxo de pessoas em movimento, dos carros que passavam, de tudo o mais que acontecesse. Vez ou outra ele dava seus goles de cerveja.

Uma voz saiu das entrelinhas do converseiro. Destoou-se. Preencheu o espaço. O epicentro da voz era o velho Foimal. Manuel não sabia ainda como alguém poderia ter um nome tão incomum e girialesco e, intrigado, deu a atenção que o idoso queria. Foi de súbito que Foimal se sentou à mesa junto com Manuel, já lhe perguntando se ele tinha mãe.
- Eu tenho ué – disse Manuel e deu outro gole de cerveja, já achando graça da bebedice imponente do senhor.
- E está viva ela? Digo, ainda, a sua mãe… - a voz de seu Foimal era cortada e grave, anasalada, digna de um velho pançudo que já tem um dos rins comprometidos. Um bigode grisalho escondia o lábio superior e uma barba mal feita e grossa lhe enfeitava a cara com o efeito de podridão. De resto, o semblante dele era, no mínimo, algo engraçado.
- Sim, está viva. Firme e forte.
- Ah bom, ah bom. É que eu já devo ter comido ela…
- (…) - Manuel ficou quieto, demonstrou-se sério, quase indignado e incrédulo ou, talvez, cético.
- Não, mas é que… Bom… Meu jovem... Eu também já fui novo. Sua mãe é daqui mesmo: Se é então… Ah!
- Você…?
- Não, não, é que é… É… é isso aí mesmo.
- Então você já comeu ela? E quando foi?
- Foi mal, foi mal! Não é que é isso. Mas, se ela é daqui eu já comi.
- Sei. Entendo – Manuel não se irritou. Compreender o nome do velho, que era na verdade apelido, já lhe valia como um prêmio da noite muito bem conquistado. Com ou sem uma verdade satisfatória, ele estava contente.
- Seu Foimal, joga sinuca? - Manuel quis saber.
- Quem? Eu?
- É ué!
- Não jogo, não. Sou aprendiz – Foimal disse olhando para o dono do bar, caixa, recepcionista e garçom que estava pela proximidade e lançando a ele uma risada demorada e irônica. - Não, sou não… Digo… Sei jogar direito não, sou é ruim demais.
- Uma ficha valendo outra cerveja. Vai?
- Vai! - Foimal falou.

Cinco minutos depois Manuel cumpria com sua palavra comprando outra ficha. Estava um tanto quanto nervoso, não por perder de um velho, mas por ter perdido de um velho chato e mais bêbado que ele que tinha uma perna torta.

- Seu Foimal, você é daqui mesmo? - Manuel perguntou. Ambos já estavam novamente sentados. O bar estava mais cheio de pessoas que buscavam aquecer a alma e encontrar verdades a fim de escapar do frio que penetrava pelos poros.
- Ué, eu que sou hem!
- E o que você faz? Trabalha:? É aposentado?
- Ih, jovem.. Eu… Quero dizer… Sou é… Fui é trabalhador. Ia todo dia pra usina. Lá era cana demais. Fui até gerente de loja. Hoje eu bebo e manco.
- Hahaha.
- Mas não sou daqui não.
- E de onde você é?
- Do inferno…
- Hahaha.
- Foi mal, foi mal. Não… É que eu, veja bem, vim lá do meio… Lá… lá de Minas.
- Minas Gerais. Qual cidade?
- Deixa quieto. Já viu mineiro falar de lá? Mineiro come é quieto.
- Hahaha.
- Foi mal, foi mal.
- Como é que você vei parar aqui?
- Rapaz, você quer é saber como é que eu levei um tiro na bunda?
- Ué, como é que foi?
- Pra que?
- Ué, conta aí.
- Foi um tiro doído. Quer saber?
- Quero!
- Vira a bunda que eu mostro!
- Hahahaha.
- Foi mal, foi mal.

A cerveja acabou. Já era a sétima ou mais de Manuel. Encharcado de bosta metafísica ele se despediu rapidamente com um aperto de mão. Foi embora dirigindo. Talvez outro dia a verdade o cafungasse na testa por dentro.



03 abril 2016

Diálogo com uma mosca varejeira ou o incômodo da introspecção

Aconteceu no meu banheiro.
Eu escovava os dentes.
Vi a mosca varejeira
sobre batente do box do chuveiro.
Olhei-a e ela a mim olhou.
Movimentei-me e ela se movimentou.
Não fugi, nem ela voou.
Perguntei: - por que não avoa
como todas as moscas
que são sempre medrosas?
Ela disse do jeito que deu:
- Também estou amedrontada,
mas já me vou embora da vida,
estou é bem mais cansada,
pois já cumpri minha lida.
Eu falei: você me incomoda,
é feia e suja. É doença!
Ela comentou: - sua crença
é de que haveria perfeição
num mundo paradisíaco
e surreal e sem igual;
falsidade cruel e anormal.
maltrato com o coração;
Eu retruquei: - devo matá-la?
Ao que então ela respondeu:
- Eu já estou morrendo.
Morta já desde que nasci.
Sou velha, estou gorda e pesada,
meus músculos não se movem,
daqui não passarei melhor,
você ainda saboreia a juventude
e experimenta muitos anos de vida.
Empático e dolente eu falei:
- Vocês, moscas, são tão ágeis e espertas,
mas você é singular, é frágil,
lerda, estranha, apática.
Ela me disse: - sou enfática
nos meus afazeres,
me indisponho com a sua consciência
meramente humana,
aqui estou a vislumbrar a diferença
e a ocupar-me da des-razão.
Eu terminei de escovar meus dentes.
Enxaguei a boca. Cuspi a água na pia.
Despedi-me. Apaguei a luz.

Vivo vivente é um morto em potencial.

Do realismo e outras loucuras


Disseram os bebuns:
- Loucos, loucos!
- para os transeuntes sóbrios
que, vestidos de cores,
floreados com sorrisos sórdidos,
embalados por prazeres físicos
surrados de almas doídas
dos cotidianos com imbróglios,
passaram diante dos olhos
daquelas pessoas visuais,
alienadas ao imediatismo da bebida.

Disseram os bebuns repetidamente:
- Loucos, loucos!
- para os transeuntes contentes.
Estes responderam,
como um remendo ao instante:
- Tolos, tolos!
No bar, do outro lado da rua,
encachaçados enervados!
Na calçada, do lado oposto,
a arte pela arte,
o gosto pelo gosto.

A consciência brinda à luz,
mas sustenta-se num cérebro
confinado a um crânio hermético.
Esta vida redige éticas,
mas se descompromissa
com prazeres desejosos
diante dos mais fúteis problemas.
A linha reta é confortável,
mas é abstração humana
que só é reta enquanto diferente
de todo o mais que é torto.
A verdade sóbria é a certeza
e é a coerência
forçada
que camufla buracos,
brechas e vazios
de uma existência incapaz
de compreender
que não compreende nada
que não seja por si só uma questão.

Eis um pesar e um alento:
é perpétuo o saboreio da vida
que é infinita enquanto existir
como fenômeno natural.
Neste planeta, neste momento,
um segundo é perfeito em si,
cada segundo é perfeito em si,
mas os anos são imperfeitos,
são pecaminosos, feios, errados.
Sem a perfeição inventada
nenhum desvio de conduta
haveria de ser encontrado.

Os bêbados com dinheiro
no bar de uma cidade
riem dos artistas passeantes
que vislumbram a realidade.
E um deles comenta gritando:
- Não, não há nada, não há
nenhuma verdade verdadeira,
nenhuma maldade desonesta,
nenhuma sinceridade interesseira,
nenhuma presa funesta,
nenhuma calma arrumadeira,
não há nada que seja o que é
e que escape ao sentimento de fé,
e não há nada que seja razão
e que não seja consumo de emoção.
Não há vida sem arte,
não há arte sem caos,
não há caos sem regras,
assim como a arte não arde
enquanto não houver certeza,
a realeza de ser é a conformidade
com a nobreza de poder morrer.
Que todos, vocês e nós,
morramos um dia e com tesão
vivamos, vivamos inteiros.

Os amigos e os inimigos tinham se formado.
Justificaram-se obviamente
não tanto com palavras polidas,
muito mais com linguagem corporal.
Despediram-se de maneira informal,
desapegaram-se e apegaram-se
com métodos singulares.
Os bêbados ficaram mais bêbados.
Os artistas transeuntes andaram mais.
A verdade e a realidade se notaram
e perfizeram-se com uso da loucura
muito acatada, esta, por ambas as partes.

Loucos!
Sejamos todos loucos!
Assumamos todos
que não há meio de viver,
de sofrer, de querer,
de obter, de trabalhar,
de buscar e encontrar,
de sentir e esquecer,
de lembrar e imaginar
nada, nem um pingo de nada
sem a loucura.

Hipócritas os que não enlouquecem!

30 março 2016

O paradoxo do loop do universo.

O oposto do oposto
O inverso do inverso
é estagnação por gosto
é gélido universo.
O tempo que vai,
o tempo que foi
a vida que sente
o amor que cai
o alento que mente
os sonhos que embalam
canções que dançam,
as dores profundas,
prazeres cruéis,
as veras loucuras,
todos os bedéis
que professam
que instruem,
que confessam,
que chacinam,
que negam,
que exterminam
consciências…
as consciências
que buscam ciências,
que buscam;
as curiosas
mentes
que procuram
o que procuram...

[Tomando café debaixo da poncanzeira, debaixo dum céu anil sem nuvens com sol, junto a uma brisa que refresca o dia quente]. 

[A densidade da existência se expandiu. De suas bases firmes a evolução fez crescer tentáculos, veias, fios, segmentos frágeis que tateiam, que procuram, que buscam novos horizontes. Mas, no vácuo incompreendido, até que um horizonte se concretize de fato, nenhuma frágil conexão se torna firme. A densidade não se perde. Ela não pode. Ela é raiz e tronco. Ela é núcleo, magma, fonte de nutrientes. Ela é calor, ponto de fusão. A densidade é perfeita por si só e se mantém. Todo o resto dela, sobre ela, todos os vermes que dela nascem, tudo que sobrevive a partir dela, em sua superfície, tenta complementá-la, tenta amá-la, reproduzi-la a seu modo, a sua semelhança, com todas as imperfeições surgidas com a adaptação às adversidades do vácuo inexplorado, do espaço desconhecido].

...a dialética é um movimento
no mínimo interessante
que explica bem a contento
o movimento constante
das forças da natureza
e claro que tudo é da natureza
pois que de si própria é realeza
criativa e sóbria e cativante
e dum ponto só nascem pontos
que ligados ocupam o espaço
em tamanha complexidade,
são consumos de vivências,
para o nosso espanto racional!
São momentos casuais
turbulências e calmaria
em pulsos e tensões,
em pulsos e tensões.

O universo e o seu loop!
Deus!
Ah...
Toda a energia
que se articula
que sustentam
princípios físicos
que geram a matéria
que sustentam
formas físicas
que se articulam
que geram o tempo
no espaço gerado
pela dialética
pulso-tensão,
pulso-tensão,
que geram os seres
de distintas ocupações
que se confundem
e que se perdem
que se maculam
e se aperfeiçoam
que se purificam
e se acabam
que se reproduzem
que se começam,
que geram ciclos
que geram novidades
que dançam
que cantam
que voltam ]
que revolucionam....
Deus!
Ah...
...
Que voltam
que revolucionam
como coisa única
e como coisa toda.



19 março 2016

BOA FAMÍLIA.


     Há pouco tempo estávamos duas amigas e eu. Discutimos sobre um caso em que eu dizia que um sujeito negro pode muito bem "abranquizar-se" na nossa sociedade brasileira, americana, ocidental, em dias como os nossos. Falei isso, na ocasião, referindo-me a um sujeito específico e à sua família cujas posses materiais são valiosas e a renda monetária é alta. Num momento eu utilizei, naquele contexto de minha fala, a expressão "boa família", ao citar o sujeito e os seus familiares. 

      As duas amigas não quiseram fluir no meu ponto de vista. Chamaram-me a atenção para o termo que usei: "boa família". Uma delas me questionou: 

      - O que é uma boa família? 
      - É uma família que vive bem - eu disse.
      - Mas que vive bem como? Rica? - Quis saber a outra amiga.
     - Sim. Sim - eu disse enfatizando minha concordância. Naquele momento a exaltação das reações de defesa, as composturas retóricas, já tinham assumido suas posições de batalha. 
     - Mas, por que? Por que uma família rica é uma boa família? Você poderia ter dito que a família é rica. Mas, por que boa? É melhor? Uma família que tem uma pequena horta e trabalha na feira não é boa, então? - O exemplo não foi exatamente este, pois minha memória não é das melhores, mas o sentido, pelo uso da comparação da situação de renda das famílias, se não me engano, foi o mesmo. 
     - Não é isso! - Eu falei e continuei: - A família boa é aquela que consegue os bens materiais e os serviços da sociedade bem mais facilmente do que outras famílias. A família boa também trabalha e até trabalha muito. Isso não importa. Não estou medindo o tanto que se trabalha exatamente. Mas, a valorização do trabalho, a renda provida com ele, bem como o acesso e o usufruto de bens e serviços materiais da sociedade. Além disso, esse acesso é feito sem as grandes perturbações ou sem as imensas preocupações que uma família que não é boa - no meu uso do termo - tem. 
     - Mas, cara! Isso não pode! Você está reproduzindo a ideia de que há um tipo bom de família e de que a grande maioria da sociedade, que é pobre, compõe o tipo ruim.

       A conversa ficou atravancada entre minha reação de defesa, a incapacidade de explicar o meu uso da expressão e o ataque à interpretação confrontante delas (tão valorativa quanto a minha). 

      Agradeço por não ter havido consenso. Um debate saudável é aquele que espinica a definição preconcebida. Mas, com uma pulga atrás da orelha, parece-me que nada foi compreendido, por outro lado. Partimos para outros assuntos e a madrugada se esvaiu.



O QUE SIGNIFICA O MEU USO DE "FAMÍLIA BOA"? 


       Primeiro, é um juízo de valor o que faço. Claro! Isso eu não nego. Eu não conheço nenhuma teoria social, nenhuma filosofia aprofundada ou uma definição antropológica - que escape ao entendimento de uma tese e suplante brechas sociais com soluções concretas - para a noção de família. 

      Tendo isso em vista, de forma bem aberta e subjetiva, como era o caso ontem, defendi um entendimento (indireto) de que família é um produto social e cultural singular de cada sociedade e cultura. Por isso, sempre refiro-me à sociedade a qual uma família está inserida. Como produto social singular, dependente e componente de certa cultura, a família sempre está num contexto e nunca isolada dele. 

      Segundo, a família é um grupo social pequeno. Ela se forma por forças que transcendem as leis jurídicas - pois existem antes destas. Envolve elo afetivo e elo coercitivo por parte dos "criadores" ou "tutores" (pais e mães, dentre outros adultos frequentes). O fato que construo e aceito é: a família existe e existe em todo lugar, em toda sociedade. Em nenhum momento sua forma será a mesma, ainda que o princípio se assemelhe grandemente. 

      Terceiro, de forma consciente, a família é um empreendimento social. Mas, por empreendimento, não quero dizer que seja racionalizada. Pode ser ou não. Ela tem planos, objetivos, metas. Mas, não há uma fórmula de como agir. Se isso estiver ausente numa família, mesmo que minimamente a imediatíssimo prazo, ela deixa de ser uma família. A razão é um esforço nosso, ocidental. Não de todas as culturas humanas. Não é melhor, nem pior, é apenas parte da nossa psiquê social. Na nossa sociedade brasileira, americana e ocidental, de raízes (forças simbólicas) estruturais e estruturantes (Bourdieu) fincadas no patriarcalismo (modelo bem brasileiro), do autoritarismo (regime de governo americano - ibérico), do liberalismo (princípio social-econômico da filosofia materialista do ocidente), nesta sociedade, a família se forma. 

      Quarto, a sugerida família está no contexto de um modernismo progressista europeu não muito bem reconhecido no Brasil pois que o modernismo não se deu aqui como se deu nos últimos 400 anos na Inglaterra ou Alemanha, por exemplo, e este mesmo modelo é o que se depara com todos os movimentos sociais que questionam as estruturas de base (citadas acima), os movimentos intelectuais do "desestruturalismo", do relativismo, da desconstrução (o pós-modernismo, ou a modernidade líquida, que seja, ou ainda seu reconhecimento incipiente). 

      Quinto, no Brasil, o meu uso livre e aberto de "boa família" refere-se para aquela família que não experimenta grandes sofrimentos. A boa família vive bem. Possui privilégios oferecidos pela situação social na qual se encontram. Suas preocupações, por mais que sejam sérias e comprometidas e concretas, seus problemas, por mais que sejam pesados, não são preocupações de quem gasta muito mais esforço para conseguir muito menos. 

     Esta é a família que reproduz, consciente ou inconscientemente, os valores brancos, liberais-burgueses, e que vai, por força de sua situação e de seus interesses mais imediatos, pretender conservar o "status quo" que lhe é agradável.

      A família pode nem se compor sob um mesmo teto. Pode configurar-se por uma rede de pessoas, membros, que ocupam países diferentes e ainda assim ser família. Podem ser "boa" ou "má" família.

      A "boa família", no meu juízo de valor, tem todo esse tipo de acesso. Mas, ela é boa também porque não vivencia grandes tensões familiares. Não há uma separação afetiva entre filhos e mães/pais. A convivência é boa porque, obviamente, é mais fácil. É boa, também, porque oferece mais esperança e perspectivas para compor um sentido positivo de vida, para sustentar uma ideia de "progresso".

      Ilustrando, nem toda "boa família" é rica, nem toda é pobre. O acesso facilitado pela situação aos produtos materiais advindos do trabalho humano e a baixa preocupação material e social, pois que o foco é a conservação, junto com uma relação harmônica de vida entre seus membros, compõe a boa família. É importante notar, também, que a boa família é socialmente respeitada. Ela é reconhecida pelas outras pessoas da mesma sociedade sob um adjetivo ou outro que seja bom, positivo. Essa família é confiável no plano externo da sociedade e é tranquila no plano interno, em seu próprio lar, com seus próprios membros. O fácil acesso e a baixa preocupação dela com anseios da existência humana - não superados por todo mundo, pois que há desigualdades sociais e dificuldades extremas - compromete essa família com uma prática de harmonia. Mas, claro, isso não é regra. A "boa família" ou é boa ou não por motivos que escapam à minha capacidade de explicar, pois os fatores são diversos.

      A "boa família" é melhor do que a família fodida? Sim. Mas, não as pessoas da boa família, nem porque ou como ela se faz uma "boa família". A "boa família" é uma situação. É um símbolo. É, também, o reconhecimento consciente de que há diferenças sociais. De que há desigualdades sociais. Ou se é uma boa família ou não se é. Quem define isso sou eu, mas não totalmente eu, pois é a própria pessoa que vive numa família que também definirá. Ou seja, quem define isso somos nós desta sociedade com nossos juízos de valor e as abstrações simbólicas que queremos ter, difundir, desenvolver, enfim. 

      A boa família é um ideal? É! Mas, o ideal da boa família não é ganhar muito dinheiro. Não é o dinheiro que está em jogo. Não é ter posses. Não é nada disso. Não é, tampouco, elitizar-se, distanciar-se das "famílias fodidas", nem passar a reproduzir os valores velhos contra os quais tanto minhas amigas, quanto eu, lutamos diariamente para pôr de lado e trocá-los, de fato, por outros. Outros valores que, no meu ver, são mais comunitários, menos opressores, mais libertários, mais formadores de autonomia do indivíduo na coletividade, mais harmônicos do plano geral da sociedade e não de apenas alguns grupos sociais.

     A boa família é uma situação. Ela pode estar atrelada, de fato, a toda a situação citada acima - ter muito dinheiro, privilégios sociais, facilidades materiais. Mas, a situação em si transcende a isso e tem a ver com a experiência existencial da família enquanto fenômeno social. Nesta situação as preocupações não são extremas, embora possam ser exaustivas. O trabalho não é mediocrizado, pois é valorizado pelos benefícios da vida, monetário, social, etc. A situação da boa família é a situação de famílias que vão pretender conservar o status quo porque ele é bom; porque ele é fundamentalmente ou promissoriamente feliz. Não importa qual seja o "status quo". 

      Este é o meu entendimento bem pessoal de uma boa família. A boa família precisa ser rica? Não. Ela não precisa ter nenhuma posse. O que está em jogo é a experiência de vida que ela tem. Nesta nossa sociedade, todavia, capitalista até as tampas, quem tem mais cria um entendimento de que vive melhor. Essa confusão é quase natural. É óbvia. É o caminho fácil.

      Para além das materialidades há todo o conjunto de símbolos e significados. Este fator eu não estou expondo aqui, mas ele é decisivo, por exemplo, na geração de vontades individuais e coletivas, nos interesses e nos princípios éticos e morais.  

       O que eu sugiro, portanto, é que todos sejam "boas famílias", que a nossa vida social consiga ser composta apenas por boas famílias. 

      Lá no começo eu disse que é "boa família" a do sujeito negro que defende o capitalismo, o liberalismo e não se preocupa em mudar esses princípios, pois ele se beneficia com eles, sente-se bem inserido nesse contexto. Esforça-se até por conservá-los. Ele defende a ideia de um individualismo liberal totalmente desprovido do fator coletivo. Na minha opinião, ele se "abranquizou" e, porventura, nem percebe isso. Ou, se percebe, ainda que sofra preconceitos de raça ou de origem, mesmo assim pretenderá conservar a sua situação, pois ela lhe é agradável. E é justamente por isso que ele conserva sua situação, de fato. Ele ser negro e ter alcançado um status de vida de elite - originalmente branca no Brasil - não significa uma conquista para todos os negros e pobres do Brasil, na minha opinião. Significa que o sujeito (que é negro) conquistou os privilégios tradicionalmente brancos da sociedade e não se preocupa em modificar isso. Ele não quer mudar o sistema social. Ele não quer acabar com as desigualdades. Para ele, seu esforço o representa e, mesmo que tenha enfrentado dificuldades muito extremas, ele conseguiu seu progresso. Ele tem uma família boa, vive bem com seus pais, consegue o que quer, tem projetos para um futuro próximo e distante, encontra paz e usufrui de lazer. Ele tem valores morais com os quais eu compactuo. Não mata ninguém, nem rouba, nem pretende machucar de forma pervertida outra pessoa, por exemplo.


      O "SER DE FAMÍLIA BOA" ATRIBUÍDO ÀQUELE SUJEITO NÃO TEM NADA  AVER COM OS VALORES QUE ELE DEFENDA, NEM COM OS PRINCÍPIOS DELE. TEM A VER COM A SITUAÇÃO NA QUAL ELE SE ENCONTRA. E, ORAS, ANALISAR E AVALIAR UMA SITUAÇÃO É UM TRABALHO COMPLEXO QUE ENVOLVE TODOS OS CONCEITOS DE REFERÊNCIAS POSSÍVEIS. 


      O termo "boa família" pode ser bom ou ruim. Pode ser alienante ou alienado. É uma definição funcional e não qualitativa, exatamente. 


      A "boa família" é aquela que vive bem. E este é o meu posicionamento enquanto indivíduo e agente social. Eu reconheço a diferença entre uma boa família e uma ruim. Após o reconhecimento, digo que a mudança deve acontecer no caminho de diminuir as desigualdades, de modo entropicamente que todas as famílias possam ser boas. 

      Se não houvesse essa diferença bem estabelecida, nem mesmo as lutas de classes teriam sentido de ser. Por que? Porque não haveria um ideal a ser alcançado, uma mudança necessária para "melhorar", para diminuir ou extirpar a exploração. A boa família pode ser exploradora e explorada, mas ela, com certeza, não está num inferno terrestre; suas preocupações não são as mais problemáticas da vida humana, ela não sofre tensões internas colossais - tensões que podem derivar, muitas vezes, de ausência material, mas também por valores e princípios incoerentes, incapazes de dar um entendimento positivo para a realidade, gerando distúrbio e dissenção.