24 Fevereiro 2011

Crônica do Senhor D...

      As noites silenciosas não bastavam. Já não bastavam para. A impermanência era um de seus maiores defeitos, uma de suas características mais fascinantes. Enjoado das janelas e paredes vizinhas. Exausto dos gozos ofegantes, felizes e puros, arrebatados em madrugadas a fio na tela do computador; ou da televisão; vibrando no auto falante do celular. Senhor D... estava cansado de sua gélida rotina do prazer. Os dias passavam, a pele amolecia, caía, as horas ganhavam peso com o acúmulo de lembranças inúteis. Seu porão não era juvenil. Não mais.
       Sr. D... desligou a televisão, ergueu-se balançando a barriga gordurosa e peluda, segurou com firmeza o pênis que ia endurecendo como de costume naquele horário e o repreendeu, castigou-o enclausurando-o no calção com elástico bem apertado. Era uma noite de sexta-feira. Senhor D... estava nervoso. A noite não seria como tantas outras que ele lutava bravamente por esquecer. Aposentou os binóculos, o computador, o celular e a televisão. Lavou-se, vestiu-se dignamente e desceu para o triunfo.
       O grande encontro se daria no shopping marcado para às 18:00h. O filme começaria às 18:30h. Garantiu um tempo, obviamente, para descascar a couraça. Era o primeiro encontro que Senhor D... tinha na vida. Embora o fato de não ter havido nada parecido ser interessante para a curiosidade varonil, o protagonista não é um tolo, de todo. Seus conhecimentos sobre a sensibilidade de cetim das mulheres – macia, aderente, bonita em várias cores, variando entre a flexibilidade e a rebelião, tantos olhares cruéis, sutis, de prata e docerias – não eram conhecimentos imprestáveis. Na teoria, Sr. D... não saberia pecar. Nem na prática, já que não tinha muito a perder. E quão grande é o efeito na mentalidade de alguém em tal situação.   O verme se torna um vitorioso leal e coerente com seus atos.
       Senhor D... não era um verme – é necessário dizer ao fugir da metáfora. Era um cidadão respeitável, possuía bons amigos, tinha sorriso gracioso, olhar confiável, embora a astúcia lhe tivesse custado algumas discórdias do coleguismo na vida.
       Senhor D... foi ao ponto combinado. Ele tinha trinta e sete anos. A mulher, vinte e quatro. Nunca haviam se visto. Não foi necessário sentar. Com bolsa marrom, jeans, colete branco... e era ela, despontando amiúde. Solange. Ele a cumprimento com dois beijinhos bastante seguro de si. A moça parecia nervosa. Não era feia, nem bonita. Tinha um charme original. Sua pele, cheirosa; seu comportamento, atraente; seu olhar, no alvo. Tomaram café e comeram biscoitos juntos. Foram direto até as suas poltronas marcadas. Qual não foi a surpresa de Solange quando Senhor D... colocou a mão sobre a coxa dela? Seus olhos saltaram, embora não se pudesse saber se de alegria, se de temor. Havia tensão no ato. A mão gorda e pesada de Senhor D... deslizou, no início como patins em terra arada, e depois foi direta para a vagina como cardume de peixes cintilantes que fogem das presas de um tubarão amedrontador nas profundezas do mar. E por falar em mar a mão de Senhor D... ficou molhada entre suores e cheiros naturais. Solange foi relutante por talvez cinco segundos, ou nem. Sr. D... não escondeu o riso de satisfação. Levou-a para um motel depois do cinema. Deixou-a em casa e foi embora.
       No outro dia em um papo virtual contou a seu amigo, Eskobar, que tinha um encontro marcado para Domingo. Eskobar, surpreso, caçoou e se interessou pelo assunto com justa causa.
      - Domingo, cara – falou Sr. D... - tenho um encontro lá na praia, Domingo.
      - É um encontro? A mulher é gata? - Eskobar perguntou, entendendo bulhufas.
      - Não sei ainda! Combinei de encontrar a moça na praia. É uma coroa. Tem trinta e cinco anos. A última não era tão velha e era gatinha até. Mas muito safada. Gozou sete vezes.
      - Como assim, gozou, cara?
      - Lá no cinema – disse Sr. D...
      - No cinema?
      - Hoje fiz uma gozar dez vezes no ponto de ônibus.
      - Como assim, cara? Calma aí, explique esse negócio direito. Você anda marcando encontros pela internet com moças desconhecidas e fazendo elas gozarem em lugares inusitados? - Eskobar perguntou, bastante surpreendido.
      - É, cara.
      - Explica direito.
      - Na sexta fui ao shopping encontrar uma menina. Fomos ao cinema. Colocando o dedo lá eu fiz ela gozar dez vezes. Eu gozei duas também. Depois fomos ao motel. Ontem encontrei com outra mulher, uma gata, no mesmo esquema, e já no ponto de ônibus fiz ela gozar muito. Não deu pra gente transar lá porquê às vezes passava alguém. Depois fomos pra casa dela. Amanhã vou me encontrar com uma coroa na praia. Parece bonita pelo que vi na foto.
      - Cara, então o lance é que você anda marcando encontros através de sites de relacionamento? - Eskobar quis saber.
      - Aham!
      - Você é bom no assunto então. Eu mal consigo gozar uma vez quando faço sexo com uma mulher numa boa cama. Se faço ela gozar três vezes ou ter um orgasmo sensacional é raro. Realmente você é o cara. Mas acho que você quer me alugar! Passa esse esquema pra mim, rapaz! - Eskobar falou, sempre com seu jeito debochado.
      - Rapaz, isso dá cadeia até. Sexo na rua!
       Pararam a conversa. Sr. D... não respondeu mais nada, desligou seu computador.


 ***Fmi***

1 dizeres:

fochesatto disse...

só no final entendi que o conto foi dedicado ao FMI. sagaz, hein? sdpogasdhsa