27 Fevereiro 2011

Experiência com psicotrópico #n.º 1 – Salvia Divinorum

       Apresentação

       Quem agora vos diz coisas é o não menos bêba'do que ele mesmo próprio autor das experimentações narrativas deste blog. Então um grande Olá para todos! Ainda ontem numa conversa entre eu embriagado e um bom amigo, Segredo, fui impelido a, e resolvi definitivamente, criar uma espécie de relatório das minhas experiências com psicotrópicos. Adorei a motivação que me sentou de bunda na cadeira e fez-me alongar os dedos muito empolgadinhos, e instigados para “fritarem como um indiano louco” – assim talvez falasse um outro bom amigo baixinho. É sinceramente justo contar o causo da experiência mais recente, tida na última terça-feira. Espero que eu supere a preguiça mental e alcance também as antigas lembranças para discorrer sobre outras aventuras com enredo sensivelmente abstrato... por assim dizer.

       Como Tudo Começou

       Meu nobre e estimado amigo, Segredo, era o detentor da droga tão, tão almejada pelos místicos em geral, espirituosos mancebos arregalados, coxos, vadios e alucinados, e eu. Enquanto, sem que eu soubesse, meu subconsciente calculava as próximas jogadas da vida, eu bebia cerveja ociosamente com alguns amigos num bar da Voluntários da Pátria. Isso ainda lá pelas tantas do pôr-do-sol.
       Um a um todos foram indo embora e a mesa se esvaindo das energias boas. Tudo por causa do trânsito que já não estava mais congestionado. A esta alma que persiste em morrer uma ou duas vezes ocasionalmente – como era o caso daquele dia – restou um amigo afortunadamente vadio tanto quanto. Adoro pessoas que reconhecem conscienciosamente exercitarem o ostracismo das funções e dinâmicas sociais. E, assim sendo, a companhia me valeria mais alguma diversão. Saímos do boteco, cambaleantes. Acabara de escurecer. Pegamos um ônibus para um bar em outro bairro. Não acredito em acaso quando penso holisticamente. Por isso creio fielmente que o tempo nos abençoou com boas-vindas alegres com, ao descermos do ônibus, uma chuva torrencial. Por dez minutos, enquanto andávamos até o primeiro boteco à vista, ruas foram alagadas. Meu amigo rebateu a interpretação que concebi ao acontecido. Para ele, pobre coração e fraca mente, a chuva era um sinal de que a noite impedia de nos movimentarmo-nos. “AHhhh...”, eu disse. E ri! Ele teve um apoio do ocaso porque ao entrarmos no bar a chuva parou de supetão. Ele enfatizou até as estrelas que depois pudemos ver no céu. Uns tem talentos para advogar, demônios!, e outros para observarem o mundo “de boa na canoa... em uma lagoa”... tra-lá-lá, enfim.
       Lá no bar a garçonete aparentou dar condição sexual para meu amigo, que chamarei de o Cuidadoso. Cuidadoso é daquelas pessoas que não falam besteira somente à toa. Ele, retesado, queria “have a fun” um pouquinho também. Como era de se esperar, com o bolso sem nenhum vintém e a voracidade boêmia retumbante em nossos corações, saquei a última carta da manga. Nem dei atenção ao apetite do meu nobre amigo pela moça realmente graciosa que nos atendia. Joguei a carta na mesa. Disse que Segredo tinha a essência de Salvia Divinorum e que eu queria sorvê-la naquela noite! Ponto! Queria! Mandei mensagem de celular para Segredo explicando minha vontade em breves dizeres. Ele anuiu e lá fomos em dupla buscar a mágica. Segredo nos fez ver vídeos que nos apresentaram o efeito em cobaias humanas voluntárias. Deu-nos o manual para uso correto. E por fim, após as explanações e diálogos comicamente sérios a respeito de., Cuidadoso e eu saímos da morada de Segredo altivos e combinados de que, naquela noite, somente eu experimentaria o efeito que chamei, no dia seguinte, de transcendental. Era preciso, enfim, que alguém ficasse de olho na cobaia para o caso de uma bad trip ou algum acidente batendo a cabeça, ocasionado por má posição corporal, etc. Cuidadoso fez o seu papel. Pena não ter filmado, senão eu colocaria as cenas, sem cortes, aqui neste blog.

*** ***

       Viagem Astral

       Cuidadoso fez todo o trabalho pesado. Ele colocou a quantidade de quatro tubos conta-gotas de água morna e de essência da planta num copo. Deixei por uns quatro minutos debaixo da língua, sendo o tempo máximo que aguentei, e engoli aquela mistura. O gosto não é nada bom. Logo senti meu rosto um pouco anestesiado e a língua ardia levemente. Tinha música, não me lembro qual, tocando bem baixinho. Cuidadoso ficaria acordado mexendo no computador. Eu senti alguma diferença, mas enganei meu nobre amigo dizendo que não acontecia nada comigo. Segundo o manual o efeito deveria começar a me atingir em menos de dez minutos. Eu disse nada e então repeti a dose! Mas eu já estava em estado de consciência alterada.
       Comecei a rir de tudo ora baixo, ora alto. Tentei relatar o que eu estava começando a sentir para Cuidadoso. Não me encontrava em um estado normal, repito. Passei a enxergar as coisas com suas respectivas cores e formas bem mais nítidas. Além disso, eu me tornei capaz de ampliar a visão a tal ponto de ver os pelos de uma formiga no trilho da janela ou de enxergar a aspereza microscópica do chão. De repente, para minha surpresa, embora tudo parecesse ser tão normal, eu mesmo me aproximava por inteiro de tudo o que via amplificado. Sentia o cheiro e a textura de todas as coisas que quisesse. Comecei a dançar. Não me lembro se dancei, sentado sobre a cama de Cuidadoso, por séculos ou por alguns segundos. Depois resolvi me deitar. Não tinha perdido a lucidez e sabia o que estava acontecendo ao meu redor e como eu agia, embora fosse tão natural agir de um jeito muito relaxado. Deite-me, desejei boa noite à Cuidadoso e fechei os olhos.
       Foi então que eu fiquei embasbacado com a situação em que me encontrava. Eu já não mais estava naquele quarto. Não me encontrava em local algum. Havia um espaço negro, um nada por todos os lados. E depois manchas de cores surgiram como se alguém as arremessasse de baldes por cima de mim e elas escorriam viscosas. Eram manchas massudas, com cheiro forte, e preencheram aquele espaço. De repente eu me vi indo em direção ao sol. Um sol ainda longe ao qual eu me aproximava, morno, deveras atraente. Sentia um bem-estar cada vez maior ao aproximar-me. Entrei no sol e fui até o núcleo. Dentro dele meus olhos chamuscavam, eu podia ver a mim mesmo brilhando. Fiquei do tamanho do sol em seguida. Eu era o próprio sol. Riscos vermelhos, azuis, laranjados, brilhantes como se fossem de neon, passavam ao meu redor entrecruzando-se a uma velocidade altíssima.
       Havia uma sensação de prazer imenso. As manchas de cores tinham me seguido até aquele local e começaram a preencher também lá. O sol era tão, não sei bem como descrever, agitado, informe, explosivo, morno, confiável. Eu tinha plena consciência de minhas vontades. Resolvi seguir viagem rumo à Lua. Era fria, mas eu não tive frio. Um campo de energia com as mesmas cores que vi antes, no sol, circundava-me e deixava meu corpo aquecido. Estiquei a mão, curioso, para tocar no solo da Lua. Chorei de felicidade, mas tão logo me vi eu já sorria. Quantos lugares interessantes eu poderia visitar, pensei.
       De repente eu já não me encontrava sobre a Lua. Estava boiando em um mar de cores diversas, as mesmas que me seguiram até o sol. Eram pesadas e movimentavam-se forçosamente. Um redemoinho me sugou para baixo. Passeio por um buraco bem apertado e enquanto eu caía com a cachoeira de cores olhei para cima e vi um balde gigante de alumínio sendo balançado fortemente para a direita e para a esquerda. Caí num gramado. Não sentia dor alguma e quando reparei, estranhando a sensação incomum, percebi que eu nem mesmo tinha um corpo. Olhei novamente para cima e uma legião de olhos gigantescos, somente olhos, quase translúcidos, me observavam. Senti-me minúsculo. Fechei meus olhos, esfreguei-os, balancei a cabeça e olhei novamente para cima. Estava noite. Quando olhei para frente vi meus próprios olhos castanhos me observando. Vi a mim mesmo imóvel. O gramado se tornou uma parede de concreto. A gravidade não surtia efeito sobre mim. Os olhos que eu via então, que eram os meus, fecharam-se. Passei a enxergar meu corpo dormindo em uma cama. Estava escuro, mas eu via luzes ao redor daquele corpo meu, tão indefeso, mas seguro de si, tornando-o muito claro e nítido.
       Mal pensei em situações do cotidiano quando deparei-me com vaginas. Saí de dentro de uma e pulei para o alto. Então entendi que eu estava sobrevoando dentro de um banheiro feminino. Havia pelo menos umas sete mulheres fazendo algazarra, conversando alto e gesticulando à vontade. Eu as via todas nuas e brilhantes. Podia sentir o calor de cada corpo. Entrei em uma das seções do banheiro e vi uma senhora idosa defecando. Outra urinava na seção contígua. Achei graça e ri muito. Ri tão alto que elas pareceram notar minha presença. De repente voltei a ver meu próprio corpo e novamente eu estava posicionado sobre ele como se flutuasse.
       E não me recordo de mais nada. Apaguei. Levantei-me no outro dia com uma sensação boa. Eu não queria lembrar de nada. Essas memórias foram surgindo depois aos poucos. Não me sentia ruim, nem muito feliz. Eu estava contente em ter acordado para o dia.

*** ***

       Os Níveis da Façanha

       Meu amigo, Segredo, empolgado com meu breve relato que lhe fiz no dia seguinte, passou-me um site http://www.salvia.net/pt/effects.htm onde li informações sobre a Salvia. Um pesquisador desta planta, Daniel Siebert, esquematizou seis níveis os quais o usuário da planta pode alcançar. Ei-los:
  • S – efeitos SUBTIS. Relaxamento e apreciação sensual; esta trip ligeira é útil para meditação, e pode facilitar o prazer sexual.
  • A – percepção ALTERADA. Presta-se atenção a cores e texturas. O pensamento torna-se menos lógico e mais brincalhão.
  • L – estado visonário LIGEIRO. Visões de olhos fechados (imagens claras com os olhos fechados).
  • V – estado visionário VÍVIDO. Ocorrem cenários tridimensionais complexos e realísticos. De olhos fechados ocorrem fantasias. Enquanto mantiveres os olhos fechados podes acreditar que estas estão mesmo a acontecer.
  • I – existência IMATERIAL. Possível perda da individualidade; sensação de consolidação com o divino.
  • A – efeitos AMNÉSICOS. Perda da consciência. O indivíduo pode cair, ou permanecer imóvel ou ir de encontro a objectos. Perigoso!
       Acho que eu experimentei todos os níveis, mas o que mais me chocou e pelo qual fiquei deveras fascinado foi encontrar-me sem um corpo, em um modo de existência imaterial com o qual eu poderia ir aonde quisesse. Achei aquilo fabuloso e espero estar preparado para experimentar novamente a essência de Salvia em um dia não muito longe de hoje. No entanto, é possível que a cerveja tenha bloqueado um pouco a ativação dos receptores de opióides kappa feita pela Salvinorina A.
Recomendo a quem quiser experimentar que o faça com algum amigo sóbrio ao lado; e que medite um pouco e busque algum relaxamento antes da ingestão. 


*** Fim *** 




1 dizeres:

fochesatto disse...

- bom amigo baixinho?
- presente.

mas vamos adiante. eu li: "eram manchas massudas, com cheiro forte". taí uma coisa que nunca tive/senti, viagem com cheiro.

enfim, fez boa viagem.