21 Fevereiro 2011

Meu aparte na linha do tempo, baby

* Estava lendo o blog da minha amiga Suzanera e achei a brincadeira divertida. Resolvi encarar o game. E o negócio é o seguinte:

“Se você pudesse voltar 10 anos no tempo e dizer alguma coisa a você mais jovem, o que seria?”


       Antes de voltar ao passado eu gostaria de escolher o lugar da piração. Aliás, os lugares. Pro início da peleja com os limites do tempo – e da memória, diga-se de passagem – adoraria estar no quarto da antiga empregada doméstica chamada A***, da época em que eu tinha sete anos lá na cidade dos touros bufantes. Eu iria aparecer de supetão, rimbombando pés firmes no chão, vestindo roupa da juventude deste milênio que já vislumbra o portal da Era de Aquário, roupas não muito diferentes da última década, e olharia bem apessoado e corado e talvez não muito sensato com incerta seriedade para eu mesmo. Olharia com dureza nos meus olhos infantis e diria para pegar, como peguei mesmo, a bolsinha de moedas de A***..
      Ladrão!
      Não porque eu louvo o ato. O aprendizado dele foi único no passar de alguns dias. Todavia, eu diria, ainda, para desviar a cabeça do banquinho que, na briga do mesmo dia em que levei o pito da mãe, meu irmão mais novo quebrou em mim. E diria para não se preocupar, pois a morte é algo tão incerto quanto dormir de olhos abertos e, portanto, não deveria jamais temê-la se agisse segundo meu instinto.
       O segundo ponto de minha viagem temporal avançaria algumas pernadas ao futuro. Eu iria me encontrar nos fundos da universidade estadual da cidade das quedas d'água. Puxaria-me pela gola delicadamente como um marinheiro bruto faz com sua prostitua juvenil pelo pescoço já aos farrapos nos filmes de aventura cômica, grudaria meus olhos na testa do jovem que eu era, e falaria, não beije essa porva! Não sinta o primeiro gostinho da saliva humana, que bom sendo feminina, de uma garota escrota. Lute com bravura e vá atrás da amiga dela, proxeneta, que serviu a esta como cupido. Você achou-a mais bonita, atraente, enfim...
       O terceiro lugar, e não o último, seria na casa da minha avó. Eu sugestionaria para eu falar a ela: - “avozinha”, me desculpe, mas prefiro fumar maconha com meus amigos mesmo, ainda que eu não veja problemas em lavar a louça para você; e só vou continuar indo a psicóloga porquê ela me incentiva a fumar maconha e a ouvir minhas bandas de rock alternativo, grunge, etc; vou sair para beber com meus amigos mesmo; e quando eu foder, usarei camisinha, assim espero. E, avozinha, não vou mais para a catequese. Mas não detesto a leitura da bíblia, pois é uma leitura, no mínimo, engraçada, embora eu pense mais do que isso daquele livrão. Mas se a J*** ou a professora M*** me derem condição, eu até repenso em voltar àquela função chata e ultrapassada na igreja". Pombas! Não sei o que é o natal até hoje... E aí?
       E, ia esquecendo um episódio terrível. Na casa de um padrasto meu, quando eu me perguntava se minha  mãe estava feliz com aquele crápula que merece feder – merece por conta própria porquê eu não preciso fazer nada, não tenho vingança nos olhos por ninguém e sei que cada mal acontece para alguém porque este alguém o buscou – eu falaria a mim mesmo, nos meus sonhos: “fique tranquilo, relaxe, e ofereça toda a sua desatenção ao sujeito. Não seja bobinho. Dê atenção aos corpos feminos”
       E então eu voltaria ao futuro que é meu tempo presente. E não me contentaria. Iria querer falar mais. Lembranças mais antigas voltam ao lado de lembranças já antigas. Seria um processo viciante, embasbacador, sofrido... e, ora por que não?, inútil. Há tanto passado que eu envelheceria tentando falar coisas que eu não sabia nem poder pensar.
       Eu certamente lutaria comigo mesmo em uma reflexão épica. Nuvens de vontades e desejos, interesses e quereres, fariam a guerra no dia dos meus dias. Suponho, ao cabo de toda a pendenga, que minha solução fosse uma só, por mais relativizada que eu a observasse. Eu retornaria novamente apenas uma única vez ao passado. Mais uma única e última vez. Iria ao momento em que eu, bebezinho, dormindo inconsciente na manjedoura plástica do hospital onde nasci, na cidade d'além dos mapas, num instante entre a enfermeira sair e a outra entrar para cuidar daqueles ex-fetos recém tocados pelo sopro divinal, e tomaria a mim mesmo nos braços para me ninar. Cantaria alguma bela melodia e diria amor, paz e luz a você, bicho!!
      O passado não se altera e nem há motivos para querer tal proeza. Sou hoje o que fui somado ao que pude me fazer ser naquilo que tenho por passado. Mas o passado continua tão presente... Essa seria, pois, a ideia que me motivaria a fazer a última, e a única válida, viagem aos tempos idos.

* É verdade, eu não me contentei em voltar 10 anos. Definir a distância é muito aborrecimento para minha cabeça frita. Mas, se a regra é inexorável para alguns, então eu só argumento com esta pergunta: Ih, quantos anos eu tenho agora mesmo? hahaha


* Eis o link do blog da minha nobre e estimada amiga:

http://sumeusecos.blogspot.com/2011/01/se-voce-pudesse-voltar-10-anos-no-tempo.html



2 dizeres:

Meus Ecos disse...

A idéia de voltar ao passado é uma chama existente em toda a humanidade...mas, que se fosse possível, realmente, não nos faria quem somos, hoje, mas quem seríamos?! Pessoas melhores?! Enfim...

fochesatto disse...

de qualquer maneira, se acreditarmos nalguma espécie de religião rota ou além, teremos de assumir que a alma é um palimpsesto tão retornável quanto os ciclos de vida das garrafas pet.