24 Fevereiro 2011

Antes de uma tribo

      Uhr sentia dor no dedo picado por um maribondo naquela manhã. Por isso encontrava-se irritado. Ele não entendia muitas coisas na vida, sinal de que se questionava bastante. Mesmo com poucas palavras para expressar as dúvidas, essas eram algo como:
      - Por que essas mulheres daqui me amolam tanto a ponto de sempre querer eriçar meu sexo até que eu espanque tudo por não aguentar mais tanto frenesi? Por que sempre sangro alguém ou preciso destruir algo?
       A força de Uhr era insuperável. Desde menino ele tinha sido bem alimentado pelo pai, um gigante de quase dois metros de altura. Uhr, como a maioria dos homens da sua linhagem, era muito loiro, refletindo lindamente a luz do sol. Os outros eram mais morenos. Segundo os mais velhos, que às vezes eram capazes de se lembrar do passado remoto, aquela geração era a junção de duas comunidades de pessoas diferentes que se uniram após a fuga de um terremoto.
       Praticamente todas as fêmeas se aconchegavam em Uhr uma hora ou outra. Mesmo as que não conseguiam se aproximar dele, sonhavam com um acasalamento. À noite, porém, Uhr apreciava ficar apenas com a única fêmea de seu interesse emocional, que foi chamada de A-Uhr por todos, isto é, “a mulher com Uhr”, pois era quem ele reconhecidamente defendia durante as pelejas.
       Fosse por medo, incapacidade física ou instinto de proteção que Uhr oferecia ao grupo, ninguém o atacava. Nem mesmo pelas costas. Todavia, para além da inconsciência, Uhr possuía vários inimigos.
       O primeiro deles, por assim dizer, o mais antigo, era Pahr, um primo com a mesma estatura, embora fosse menos hábil com o corpo. Este não atacaria jamais Uhr. Estava traumatizado com as violentas surras que levou do primo e somente dele na juventude. Mas, em seus pensamentos, as maçãs e pêras e cumbucas de água que ele levava especialmente para Uhr escondiam uma outra intenção. Pahr entendia que se Uhr não se movimentasse acabaria por se tornar fraco. Esse era Pahr, o realista – como poderiam chamá-lo se o vocabulário fosse maior.
        Józ, primo distante, adorava Uhr e queria conviver com ele, sempre que aquele estivesse de bom humor, o máximo de tempo possível, para apreender seu comportamento, suas maneiras, alcançar o mesmo raciocínio e força, para enfim superá-lo. Józ adorava aquela posição social em que Uhr se encontrava.
       Tâns, um sujeito cômico, parecia ter poderes sobrenaturais. Ele era fraco e, para se proteger, superestimava Uhr sempre que este estava por perto. Tâns entendeu que sem a força equivalente aos outros varões, ele precisava conhecer a natureza. Por acaso descobriu uma cumbuca mais leve e maior para carregar grande quantidade de água de uma só vez e inventou um sistema de apoio sobre um pau retilíneo apoiado nas costas em consequência disso. Inventou também o estilingue e entendeu que o couro de vaca era bastante útil para muitas coisasl. Estava quase conseguindo domesticar uma delas, quase inventando o sistema de boiada. Tâns foi capaz de compreender que, mesmo sem a força suprema, mas aliado a esta, seria possível tornar-se amigo da natureza e procurar “no futuro” o que ele chamou de “Livro”, ou seja, a solução para desastres naturais. Tâns se tornou popular e, depois de Uhr, era a pessoa mais respeitada e procurada da comunidade. Transformou-se em conselheiro de quase todos, pois a maioria se sentia bem passando algum tempo ao lado dele. Era uma pessoa inteligentíssima e pacífica.
       As mulheres, não todas, mas mais do que a maioria, principalmente as jovens, levavam tudo que fosse vital para Uhr. Bastava um pedido dele aos ventos. Uhr sorria e agradecia com um breve “Sighs”. Como ficou sabido entre elas, após uma discutida entre Tâns e o homem mais velho ainda vivo, a cópula criava o filho e não havia outra explicação. Consciente disso, todas queriam se acasalar com Uhr. Ele era vitorioso, atraente. As que não procuravam Uhr eram praticamente infelizes, pois faltava algum prestígio social fundamental. Essas não o procuravam porque se o fizessem apanhariam das mulheres mais jovens.
       Uhr, quase todas as noites, olhava para as estrelas. Era encantado por elas e posicionava-se em um silêncio quase transcendental. Muitos jovens, especialmente os que admiravam Tâns mais do que Uhr, por temer verdadeiramente este último, pensavam ser importante “ouvir” as estrelas, pois tamanha era a fascinação que elas lhes causavam, tanto mais a exemplo de Uhr e Tâns.
       Mas Uhr não era político, nem sábio. Ele era herói, romântico, bruto e grotesco para os padrões nossos, mas não para sua vida. Um dia salvou “A-Uhr” de dois chimpanzés famintos. Copularam lá mesmo. No entanto, por um infeliz acidente, Uhr torceu o pé. Todos viram o ato falho, mas nada fizeram. Ele salvou uma mulher da comunidade e isso lhe rendeu mais admiração.
       Duas semanas depois, um jovem guerreiro encarou Uhr. Seu corpo era rechonchudo. Ele se vestia com pele de urso. Segurava um pedaço de madeira maciça com a ponta talhada em forma arredondada. Seus olhos estavam vermelhos. Ele chorava e tinha muita raiva no coração. Facilmente notava-se uma grande diferença de idade entre ambos. Uhr olhava-o com seriedade. O jovem gritava e grunhia. O jovem correu na direção de Uhr. O pessoal da comunidade toda cercou os dois, formando uma espécie de arena num local descampado, onde acendiam a grande fogueira em noites de lua cheia. As mulheres subiram nas árvores pare ver melhor. Os garotos subiram em pedras ou seguravam os amigos nos ombros para estes irem relatando, sempre com breves palavras ou gestos, o que ocorria. O jovem, chamado Tuhr, investiu duas vezes o pedaço de madeira sobre a cabeça de Uhr. A agilidade deste não era tão grande quanto antes, ele sentiu a dor no pé machucado, num momento de respiração pesada Tuhr o acertou em cheio, derrubando-o. O jovem jogou para o alto aquela madeira e partiu para cima de seu oponente. Enterrou vários socos na face de Uhr até escorrer muito sangue. Todos temiam o pior. O jovem parou com os gritos alheios de susto. Ergueu os braços, gritou o mais alto que pôde em comemoração da vitória. Uhr ficou deitado por algum tempo enquanto todos deixavam suas posições e voltavam a seus afazeres. Tuhr desapareceu na floresta.
       Ao cair da noite Uhr foi ao lugar onde sempre ia para repousar. Sua morada estava abastecida como sempre. Mulheres o procuraram. Ele mandou todas irem embora e clamou por “A-Uhr” que apareceu imediatamente. Durante o dia seguinte todos continuaram o serviço para Uhr. Ele era o motivo da vida deles ainda. À tarde, o jovem voltou para a comunidade. Aproximou-se de Uhr com a cabeça erguida. Outros jovens, também muito fortes, o seguiam. Tuhr bateu novamente em Uhr, que não fez nada para se defender. Ele estava deprimido. O jovem, sagaz, compreendera o esquema do jogo. Formou até uma força armada, com paus e estilingues sempre prontos para o combate. Tuhr gritou bem alto para chamar a atenção dos presentes. Ele não sabia usar muito bem as palavras. Apontou para as comidas aos pés de Uhr e para as cumbucas que estavam dispostas no chão e afagou sua barriga sorrindo. Ele usava uma nova veste feita com couro novo de vaca. Tâns, ao ver aquilo, apreciou o bom gosto.
       Mas o astral não estava iluminado naqueles tempos. Uhr se mudou para debaixo de uma árvore centenária e construiu sua casa com alguns troncos e folhas por lá após Tuhr ter lhe tomado tudo. Algumas mulheres, poucas, ainda o visitavam. “A-Uhr” o encontrava todas as noites, deveras carente. Ninguém ousava tocá-la, nem mesmo Tuhr. Tâns estava insatisfeito com o comportamento do jovem guerreiro que prostrara o antigo campeão. Tuhr atazanava Tâns e a popularidade deste estava em baixa por conta disso, principalmente entre a geração nova. Certa noite, observando o firmamento com seus três filhos, Tâns teve uma ideia.
       O respeitado conselheiro se aproximou de Uhr um tanto temeroso na manhã seguinte. Segurava “A-Uhr” por um dos braços. Ele afagou a barriga dela, apontou para o pênis de Uhr sorrindo, apontou um por um para seus filhos, ávidos por entenderem aquela cena esquisita, e falou:
      - “Rás” - que significa filhos. Pegou uma cumbuca, entregou-a a Uhr, que olhava com sincera curiosidade cada ato. Em seguida falou:
      - “Dós” - que significa “seu”. Por último retirou a cumbuca, repousou a mão calejada sobre a barriga de “A-Uhr” e disse:
      - Uhr! Uhr, “retos” (amigo). Oh, Uhr! Rás Dós.
      Uhr abriu bem os olhos. Ele nunca tinha pensado em ser “dono” de outra pessoa. Associar a posse da cumbuca a posse do ser que sairia do ventre de “A-Uhr” foi uma revolução em sua mente e também na de “A-Uhr” e na dos três filhos de Tâns. A nova ideia foi difundida rapidamente pelas crianças de Tâns, que eram tão boas de conversa. Muitos, passando a considerar o filho como alguma coisa pessoal, resguardaram suas mulheres grávidas ou passíveis de ficarem prenhas e elas se resguardaram. O jovem guerreiro se sentiu abalado. Somente velhas passaram a procurá-lo. O amor estava literalmente no ar e nascia uma ideia de casamento, para além da prática sexual à vontade. Um conceito, “Dós”, de posse, desenvolvia-se na mente daquelas pessoas.
       Tâns, o conselheiro, profeta e inventor, se reuniu com os velhos e mais sábios da comunidade. Estava cansado dos maus tratos do jovenzinho parrudo. Ele falou que as estrelas lhe contaram um segredo. Ele alertou a todos sobre uma pedra mágica que ensinaria um linguajar avançado para todas as pessoas. Falar bem deveria ser a solução para todos os males. Era preciso investir numa língua eficaz. Essa pedra se encontrava além da grande montanha gelada e deveria ser naquela região a nova morada da comunidade. Uhr acreditou vivamente em Tâns. Chamou “A-Uhr”, que estava grávida, para irem embora levando seus escassos pertences. Tâns os acompanhou, servindo de guia. Mais da metade da comunidade os seguiu esperançosos por dias felizes. Muitos jovens queriam ser tão sábios quanto Tâns e tantos outros queria ser como Uhr, seguindo o exemplo de heroísmo que a lenda contava sobre ele ter salvado vinte mulheres de quarenta lobos sozinho. Uma lenda inspirada na luta contra os chimpanzés, feliz e traiçoeiramente contada por Dók, filho mais velho de Tâns.
       E foram embora sem olhar para trás.
      Tâns, no entanto, jamais havia falado com as estrelas. Morreu de ataque cardíaco ao longo da caminhada quando enfrentavam um nevoeiro no meio da montanha. Fez frio e todos se vestiram com couro de vaca. Além disso, em homenagem a Tâns, após seu enterro muito pomposo e regado a lágrimas de todos, inclusive de Uhr, investiram na tentativa de levar consigo as vacas que encontravam pelo caminho. Ter leite de sobra e carne para o frio era, afinal de contas, algo vantajoso em relação ao esforço.
Tâns não esperava, contudo, que mentes brilhantes dos mais jovens, seus admiradores, realmente fossem capazes de falar com as estrelas, entender as estações, como fizeram meses depois, já vivendo na terra nova. Todos deram a Uhr, por unanimidade, o poder de liderança, por sua experiência de vida, e não pela força que ele ainda possuía, que era tremendamente assustadora. Novas ordens sociais pareciam surgir dentro de uma razão mais centrada na evolução do que, a partir de então, poderia ser chamado de tribo. I – Antes de uma tribo.


***Fim***

1 dizeres:

fochesatto disse...

uhr, a-uhr, pahr, józ, tâns, tuhr e dók... o que tu tá aprendendo nessa faculdade de história, hein? nomes pros bastardinhos?