- Muita pimenta.
- Forcei a barra mesmo?
- Apimentada demais!
- Vou buscar um copo d'água.
- Por favor... cof, cof...hrhhrr!
- Aqui. Mil desculpas, senhora! Não quis...
- Tudo bem. Não foi nada. Acontece. Traga um novo prato, não tenho pressa. Peça ao cozinheiro para não colocar pimenta alguma dessa vez, por favor.
- Pode deixar. Obrigado.
“O diabo não existe. A essa altura, aquele casal de hoje, do restaurante, deve estar trepando. Ou não. Podem ter brigado por infortúnio. A pimenta superaqueceu a racionalidade da senhora que, infelizmente irritada, descontrolou-se aproximando-se da selvageria que tanto sempre controlou, como todos nós, e debochou de algum ponto fraco do marido com certeira pontaria. Poderia ter sido a respeito da obesidade, dos poucos cabelos brancos, de seu comportamento ranzinza e da taradice, ou da atrasada sinceridade com que lida com seu relacionamento amoroso. A pimenta teria desencadeado fortes emoções e fundido a vestimenta da alma à natureza alquímica.”
“Deus não existe. Quantas pessoas não devem ter morrido hoje? Quantas vieram à luz! Sebastiana que foi atropelada tinha algum motivo para sofrer. Ela olhou para cima, assustada e curiosa com o primeiro impacto sonoro. Viu o saxofonista que logo desatou a melodia, revirou suas folhas de cifra e seriamente colou os lábios na palheta outra vez. Descendo o queixo à altura de seu comportamento usual da caminhada apressada, pensando em, mas mais lenta do que a mente, assegurar-se de que automóvel distraído algum a atingiria, notou já estar caída, tão frágil, no asfalto. Viu por muitos segundos um sangue pessoal. Que céu ela buscaria enxergando sujeira da rua?”
“Mas anos são eternos, um dia é excesso que ninguém suporta. Meses parecem loucura. Horas e traços de candura dão azia se vistas analiticamente. Que céu era o céu visto nos olhos turvos daqueles que se preocuparam e ainda vivem, turvos e opacos como que presos atrás de um copo vazio? A imensidão das revoluções acontecem no existir que não se encaixa em dimensões temporais. O resto é consequência cristalizada.”
“O que importa não pode ser medido. Não porque não deve. Não se pode apenas! Sebastiana levou o impacto consigo como um buraco negro na alma. Isso estava claramente visível, talhado, naquela expressão impossível. Homens públicos levaram o bagaço. E que desperdício, pensou um. E que maleficio, pensou um. E que vergonha, calculou outro. Mas que vergonha. Mas que tédio, calculou outro. O sangue carnal de Sebastiana chegou deslizando tal como o vapor que um bule exala quando aquecido ao fogo. Aquele chão se sujava com o sangue mais, com a lágrima salgada mais, com o buraco do silêncio novamente.”
*** *** ***
“O sangue carnal de Sebastiana, Dores – assim apelidado pelo nariz formidável do observador que acompanhava o caso com sua filmadora pela janela do prédio vizinho –, revirou-se entre uma dor na espinha e outra no coração, e muitas mais pequeninas em cada célula mordazmente funcionais. As janelas não fariam chover para um fracasso desesperado. Dores se despediu, mas: “talvez eu a encontro como vibração! Aqui, ou depois. Não quero ter pesadelos! Por Deus!” Dores deu corda em suas pernas que o levaram embora. Por um caminho insensato beirando o porto. Sombras tortas, silêncios doídos. Ruídos acabrunhados. Quanta grosseria numa arquitetura robusta! A ignorância casada com um coração cheio de calafrios faz um homem voar tanto quando aquele que já é feliz só por ser. Dores foi assustado por um gato preto que saltou a sua frente e sumiu nas trevas. Chuviscava. Ventava. “Onde estou?”
“Vício impossível. Dore acendeu o cigarro e ancorou-se na parede lá sentando sobre um papelão perdido. Aproximou-se uma garota adolescente. Vestia blusinha preta muito pequena para o corpo, uma bermuda jeans apertada e calçava rasteirinha carcomida. Não tinha um cheiro bom. O lugar todo não cheirava bem, senão a peixe podre. Mas todo o odor o atraía como que se dialogasse, como aroma, em plena harmonia com seu instinto. A mocinha, negra quase não visível, se achegou perto de Dores sorrindo com dentes amarelos e. Perguntou-lhe sobre cigarro. Este entregou a ela um. Perguntou-lhe dinheiro. Este afirmou a ela dando-lhe algum. Perguntou-lhe sobre doenças. Este sopesou o pênis retirando-o para fora. A mocinha se ajoelhou encostando os lábios na glande masculina.”
“Um sussurro rouco enfrentou o prazer e saiu vitorioso. O cheiro ruim se tornou insuportável. A mocinha saiu correndo camuflando-se. Dores levantou de vagar olhando nos olhos do Sussurro que segurava um canivete e tinha músculos. Dores deu o indicador para a noite. O Sussurro queria importuná-lo. Ali só poderia ser sua casa, bem mesmo a sua cama. Dores se aproximou enraivecido. “O mundo é uma partilha, imbecil”. Tentou pegar o canivete do Sussurro, e este queria defender a única propriedade que ainda lhe restava às mãos. Sussurro quis cerrar os dentes e cerrando-os queria desferir pontas de metal em Dores como quem faz sangrar a raiva personificada em um ponto qualquer, qualquer ponto estanque no mundo que se faça presente na hora do turbilhão à flor da pele.”
“Dores foi levado à sua viagem astral como era o provável. E Sussurro ganhou alguns dias de alimento rico em carboidratos com o dinheiro que guardou carinhosamente por direito seu. Não, o dia não terminou. Uma sombra de uma singela e voraz camuflagem atacou duas crianças que esperavam o táxi após qualquer insignificante festa noturna. Elas não sentiram prazer naquela noite, embora tivessem tido um destino menos quieto do que o próprio Dores.”
***Fim***
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