Num instante dum caminhar retardado e absorto a noção do espaço se desvaneceu, passou, despreocupado, o ônibus com sua força bufante e irritável materializando a poça d'água nas calças do garoto transeunte. Valfrido, acostumado, andava próximo aos muros. De cima ainda fazia frio, principalmente nas mãos e no pescoço. Quem admitia soluções naquele instante para as veias abertas do povo?
Duas pombas conversavam debaixo do banco do ponto de ônibus do outro lado da rua; ventava, chovia; as penas estavam espichadas e pesadas. Restava nada a não ser uns puídos gorgojeios surdos. Valfrido viu duas carnes podres, transmissoras de vermes, mas que dispunham de intelecto fantasticamente avantajado e conversavam lá em sua língua.
Como o vento se alegrava com fofocas, dirigiu-se até lá com um grande ouvido. E, conhecedor da língua da natureza, traduziu em silvos o que ouvia. Para as pombas o maior perigo era tudo o que estivesse acima delas. No entanto, mal nutridas e embestadas, voavam pouco, sedentárias por lazer. No entremeio do movimento urbano...
… Pombas conversavam sobre a vida.
A: como é passageira a vida!
B: é, mas não sei bem o que vale isso – e ia dizendo B.
A: No final tudo pode ser visto num piscar de olhos. Limitado ao universo, quem olhar de longe a vida de alguém, poderá vê-la como um ponto qualquer no espaço, como se fosse uma fotografia em formato aumentado sendo vista de frente, como se o observador pudesse percorrer tal imagem estagnada e fria com os olhos por todo e qualquer ângulo. Aquele garoto que se encharcou e aquele ônibus são ranhuras na fotografia. Até mesmo o asfalto o é! Aquelas nebulosas de tamanha altura de onde se precipitam e este banco que a nós é primorosa cobertura protetora. Resta saber quem observa de longe.
B: Se ninguém observa, ou se não observa com nossos próprios olhos, nada será útil.
A: Por isso, meu caro, e só por isso eu concluo que tudo é o nada e o nada é o tudo. Que nós somos o pequeno assim como somos o grande. E digo, descapengando meu pensamento simplório, que como estamos aqui, estamos lá. Nossos olhos são olhos que experimentamos agora, mas antes e depois, num lugar além do espaço e do tempo somos com olhos de acolá que aqui veem tudo em preto em branco, embora enxerguem longe e longinquamente.
B: O garoto aprenderá a superar uma chatice...
A: Lá ou mais aquém ele já sabia disso, mas só aqui poderia ter isso...
0 dizeres:
Postar um comentário