Se eu fosse amigo de Camões pensaria em Adamastor. Se conhecesse Pessoa, daria conta de entender o problema dizendo “multiplicidade do ser”. Sou de hoje, uma época madrasta doutras épocas, transitória e indefinível por nós mesmos que aqui estamos, e nem por isso incompreensível, sim largamente cabível nas loucuras diversas. Erasmos personificou a loucura em um transe seu e difundiu ao mundo o resultado em palavras. Hoje, mais do que ontem e possivelmente mais do que amanha, temos em nossa genética a célula da loucura junta às outras tais como as que formam os músculos, o sangue, os glóbulos brancos por exemplo.
Como inventei de pensar após um período de letargia ao sol, arrisquei induzir o que pode ser “tormenta” para um jovem adulto contemporâneo, ora afásico, ora preguiçoso, ora maquinal, ora natural, genial e curtido, filho da burguesia não muito burguesa, ou burguesia proletária, camarada de ideologias comercialmente difundidas no espaço social que não têm começo, nem fim, genro da alienação, irmão das melancolias, egoísta altruísta por obrigação mundial. Uma tormenta possível seria viver daqui a um mês. Outra tormenta, a que destaco enfaticamente, poderia ser adorar a imprevisibilidade do próximo mês e tornar-se assustado, num contraponto, com a incapacidade de planejá-lo. Mas a tormenta destacada, ou melhor, filtrada de tudo isso, que representa toda a importância da história que está por vir, é a ambigüidade das possibilidades únicas nesse mundo atual; nesse mundo que é um conjunto de mundos, que já vislumbra a era de Aquário embora ainda esteja preso às bolas de ferro dos prolíferos patriarcas.
Rodrigo tinha o braço direito engessado. Num suspiro de alívio tomou o analgésico e voltou a fixar os olhos na televisão. Aqueles dias seriam cruéis, fariam dele um obeso e o tornariam em um fadigado mental. Até aqui nada difere da situação já existente, mas o problema é que ele estava ciente disso e, devido à situação que exigia extremo repouso, tinha feito compromisso com sua vida. Tornar-se obeso e ter preguiça mental tornara-se uma obrigação. Algum dinheiro entrava certamente todo mês. Sua esposa atormentada por conflitos internos e pela limitação da condição social, e uma certa fraqueza de espírito desenvolvida com o sublime avanço da idade, arrumava a casa. O ambiente era perfeito para: obesidade e preguiça mental!
Mas os deuses se esquecem que os humanos são dotados duma virtude embutida neles desde a concepção – sabe-se lá como! Humanos surpreendem repentinamente e nem mesmo sabem como causam a surpresa (pelo menos não o sabem racionalmente). O acaso é um amigo deveras respeitável, tenhamos isso em mente, senhores e senhoras!
Assim dada uma explicação – de caçapa de sinuca, diga-se de passagem – é que a engenhosa imaginação se deu. Rodrigo viu na televisão um programa sobre turismo. O apresentador viaja pelo mundo e explorava culinárias diferentes. Mas não se limitava à culinária. Para descobrir a origem dos alimentos e das receitas de cada povo exótico, o apresentador fazia aventuras fabulosas como rapel em cachoeira, mergulho no fundo do mar cheio de tubarões, descida de correnteza em um caiaque e pesca de jacaré com as mãos. O mundo real, e sinistro, atraiu Rodrigo. Algumas semanas depois e com o braço já podendo ser usado, o ‘bom vivant’ de uma classe bem humildemente média resolveu sair de casa. Deixou sua fonte de renda restante para a esposa e cartas para o único filho. Saiu com roupas leves, uma quantia razoável de seu fundo de garantia e uma mochila pesada nas costas. Ele estava cansado de tentar inibir o olfato, de não usar toda a potência das células tácteis da pele, principalmente das mãos e dos dedos, de não sentir tensão, medo e pavor na natureza selvagem e de só ouvir o mesmo burburinho urbano, ensurdecedor e desprovido de sentido, todos os dias.
Rodrigo queria viver o quanto fosse capaz em frente a um furacão, na crista de um maremoto, dormindo em uma rede na borda de qualquer vulcão ativo. Loucuras por loucuras, camaradas, essa deve ser considerada digna de coragem e bravura. Uma pitada de tolice, talvez, mas desconsidero essa negatividade para o lado do bom rapaz que resolvera partir para o Oeste na contramão da rotação terrestre.
2 dizeres:
Seu blog é muito divertido. Você transforma coisas simples e cotidianas em contos interessantes, cheio de pensamentos sinceros e até mesmo engraçados. Não deixe de escrever. :)
... é aquela velha história né: cheirar merda sozinho é coisa de retardado, mas cheirar merda quando se está bêbado para rir em meio aos amigos é como saber que a morte vai dar o abraço fatal um dia e, por isso, preencher o espaço de tempo entre esses dias, o começo e o fim, com espumas de chantilly em formigueiros.
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