26 Agosto 2011

Banquete selvagem



Naquela manhã nós nos lembramos como éramos uns mongolóides. Quando crianças, ficávamos em pé olhando para baixo com a boca aberta; a baba involuntária que caísse e tocasse o chão primeiramente dava vitória ao seu dono; a regra dizia que ninguém deveria mexer os lábios ou a língua para frente para provocar a criação de saliva. Eu, Aníbal, encadeirado, bem no fundo, tapando o sol com óculos escuros, metido num chapéu verde-musgo e tomando café, observava pessoas. Estávamos num hotel e pessoas, senão almas, transeuntes, eram algo que me davam motivo para não gritar; a dor de cabeça da ressaca me afligia como um infortúnio, um tipo de pungido incansável. Sim, justa era a ressaca, mas imperdoável... pelo menos até aquele instante era imperdoável. Para entender o que vem a ser “en-ca-dei-ra-do”, lembremos do verbo apunhalar, retiremos o sentido e o objeto que sustentam o verbo e o transportemos para expressar “eu como algo que fere a cadeira”, isto é, transportemo-lo para algum motivo; aliás, o motivo. Ah, ressaca é o cúmulo da “fudição”!
Ao meu lado, ou em frente à mesa – realmente!... a mesa era redonda, esqueçamos isso – estava Jair. Jair, meu nobre amigo, às vezes o melhor, às vezes um amigo qualquer, se não se encontrava num extremamente pior estado do que o meu, encontrava-se, possivelmente, para dizer o mínimo, pior do que eu.
Como já tinha dito: era manhã. Eu tomava uma xícara de café. Na mesa havia algumas torradas, patê, tantos talheres, copos, enfim, era uma mesa completa servindo bem ao momento do café-da-manhã. Eu estava com as pernas sobre o braço da cadeira, chafurdado nela. Jair, meu amigo, olhava um ponto estranho no meio do nada da piscina do hotel. Eu podia ver seus olhos porque o sol batia diretamente nos óculos escuros. Suas pernas estavam abertas e ele tinha os braços sobre elas. Aquela compleição séria poderia assustar muitas garotas: éramos velhos, mas nem tanto. Ao menos os óculos desenhavam alguma beleza “na porra toda”.
O garçom se aproximou. Ofereceu qualquer coisa que recusei. Jair não falou nada. De repente meu amigo se levantou. Tirou suas calças. Repousou os óculos sobre a mesa. Tirou a camiseta. Já estava de sunga! Pulou na piscina! Mergulhou até o outro lado!! Cumprimentou uma senhorita encostada na parede que conversava com outras senhoritas!! Sorriu, olhou de soslaio com o olhar mais sacana que algum ser do universo possa fazer, e piscou para mim. Não fiquei surpreso; apesar da tendência a um pouquinho de encenação.
Cumprimentei-o com a mão ao ar, movimentei-me. “Quanta velhice num corpo humano”, resmunguei. A moça ao lado ouviu e sorriu. Pífia situação. Corri para a piscina, dei a barrigada legítima da idade e nadei, ora boiando, ora deixando a corrente da água me empurrar até onde Jair se encontrava. Quanta beleza em volta de um único homem, exclamei em minha própria cabeça. Cumprimentei as garotas. “Ei, lá no meu quarto vai começar uma festa agora mesmo”, eu disse. Gritei o número do apartamento e saí com Jair e algumas senhoritas. Passei no balcão e pedi para o serviço do hotel articular os ingredientes para a feitiçaria.

À noite, passada a ressaca, outra vez bêbado, saí com Jair e duas garotas que insistiam em nos acompanhar. Não éramos tão velhos, apesar do sensual ranger dos ossos. As discípulas de Afrodite desistiram do pôr do sol e foram seduzidas por Morfeu, como de costume. Jair, eu, o Aníbal, e mais sete garrafas de cerveja numa caixa térmica, achamos uma fogueira, ou a extinção dela. Estava acesa. Deitamos as moças em nossos colos para termos apoio para as mãos.
O começo daquela cena foi lindo! Eu via as fagulhas da brasa quase em cinzas subindo e estralando, subindo na tentativa de alcançar o espaço sideral, a liberdade máxima, e perdendo a chance, perdendo para a limitação física de sua condição existencial. Era ilimitada e natural a intenção de subir, subir até onde não pudesse mais e passar daquele ponto; ao mesmo tempo, era limitação natural estourar e desvanecer e extinguir-se no mesmo espaço em que surgira. Para as outras fagulhas aquela fagulhazinha solitária e bravia tinha alcançado o limite além do horizonte. Para as outras, aquela era uma lenda. Para aquela que virou lenda, sua vida fora um desperdício. Tudo se perdeu, ao final, na individualidade.
Eu refletia exatamente sobre aquilo: fagulhas da frouxa fogueira que quase se apagava e limitações e talvez uma impossibilidade de superação máxima dentro das pequenas possibilidades de superação. Enfim, eu estava chapado! Verdadeiramente. Não, não; não estava chapado. Eu estava fritado! Era o penúltimo dia num hotel indiscutivelmente caro do sul da Índia, à beira do mar. Recuso-me a dar o nome do hotel. Não quero ninguém lá e quem for que seja amaldiçoado. A lembrança é minha, do Aníbal! Na próxima semana eu deveria voltar ao trabalho. Jair idem. Estávamos praticamente falidos, apesar de apenas termos ficado duas semanas viajando de férias.
Jair me olhou. Sairiam palavras sensatas naquele instante – pude perceber de supetão. Jair: “A Lua... tá bela, não concorda?”, disse-me o último descendente da nobreza.
Aníbal: “Sim”, respondi olhando para minha garrafa que esquentava e precisava de um fim rapidamente.
Jair: “Pois é. To chapado, brou.”
Aníbal: “Eu também.”
Jair: “Bora cair no marzão?”
Aníbal: “Vamo.”
Jair: “Aí, deita essa mulher do lado dessa mulher.”
Aníbal: “Ajuda aqui.”
Jair: “Que maravilha hem! Safadinhas à milanesa.”
Aníbal: “Essas gringa acham, ou eu deveria dizer supõem?, que a gente tem grana, né?!”      
Jair: “Pensei que elas só queriam pau. Mas, enfim, no mínimo a gente deu uma cama boa pra foder, pagou umas bebidas até caras e garantimo a melhor sensibilidade.”
Aníbal: “Eu tava junto?”
                Jair: “Tava ué...”
                Aníbal: “Tu é juvenil mehmo hem cara! Claro que eu tava junto, senão nenhuma delas tinha tido a melhor sensibilidade, haha.”
                Jair: “Elas são gostosas, cara.”
                Aníbal: “Quem é essa aqui que veio comigo mehmo?”
                Jair: “Kendy. A outra é a Cynthia.”
                Aníbal: “Legal. É uma bela visão: essas duas aí. Não acha?”
                Jair: “Me deu vontade de transar agora mehmo.”
                Aníbal: “Carca em cima!”
                Jair: “Nem... e o marzão? O dia ta nascendo cara”.

                Aníbal: “Bora lá. As onda tão fracas, ó só!”, fomos diretamente para o mar. A temperatura da água estava morna, eu diria que entre os 20ºC e os 24ºC. Temperatura excelente. A água do mar revitalizava o corpo e a alma, de fato. Meu amigo Jair e eu ficamos onde a profundidade exigia leves saltinhos para não imergirmos a cabeça.
                Jair: “Cara, me sinto bem com essa viagem.”
                Aníbal: “...”
                Jair: “Depois disso posso morrer, cara.”
                Aníbal: “Que bom que agora ce pode morrer.”
                Jair: “Não quero morrer, mas já posso. Sinto que fiz algo na minha vida pela qual e que depois vou pensar retrospectivamente, no futuro, e dizer que vivi.”
                Aníbal: “É, eu também vou.”
                Jair: “Não é o máximo, cara?”
                Aníbal: “Você tá muito bicha hem cara.”
                Jair: “É esse pôr do sol lindo abrindo o fechamento de um conjunto de dias incríveis.”
                Aníbal: “Quero fazer uma coisa que nunca fiz, brou.”
                Jair: “Fala.”
                Aníbal: “Quero fazer um diálogo como os que Platão escreveu. Uma coisa parecida com os banquetes de Sócrates.”
                Jair: “Ah, pode ser, mas dá pra ser na água?”
                Aníbal: “Ué, por que não seria na água?”
                Jair: “Não sei.”
                Aníbal: “...”, eu fiquei quieto. Sorrindo mostrei a palma da mão, sinal universal para dar a vez ao interlocutor.
                Jair: “Por que não poderia ser na água? Por que poderia ser? Tanto faz. Mas tendo em vista que a gente já tá na água, então só posso pensar que seria uma grande “falta de tato” para com os prazeres que a natureza nos deu sair da água pra discutir algo combinado..., ..., ... previamente.”
                Aníbal: “Então a gente descarta as duas primeiras perguntas óbvias que nos atrapalhariam para travar um diálogo porque damos mais crédito à idéia da utilidade de uma ação?”
                Jair: “Sim. É isso. Eu não preciso sair da água se não quero sair. Conversar sobre qualquer coisa agora, neste exato momento, é não aproveitar o máximo possível que o momento nos oferece e ir fazer algo que, se não for deste jeito mesmo, vai ser chato pra caraleo.”
                Aníbal: “Tem razão. Aí cara, a gente nem investigou nada direito ainda, mas já to de saco cheio disso.”
                Jair: “O momento é cruel pra isso. A gente ta com ressaca acumulada de semanas, brou.”
                Aníbal: “Tem razão. Olha o sol, reflexo na água, cara.”
                Jair: “Reparei numa coisa agora. A gente é mais burro que aqueles filósofos gregos né?”
                Aníbal: “Não sei. Por que?”
                Jair: “Eles conseguiam ir a fundo numa idéia, pensando parte a parte...”
                Aníbal: “Os livros são livros, cara. Em filmes ou em livros, a história tá totalmente elaborada já. Você acha que não tinha emoção e nenhum tropeço nas palavras naquela época? Me poupa né bichô!”
                Jair: “Mas a gente nem quer tentar discutir algo para saber a verdade das coisas. A gente se limita a ver a beleza do reflexo do sol no mar prateado.”
                Aníbal: “Cara, esse é o banquete nostro. Nosso século é assim. Platão e a gente somos felizes como podemos, afinal de contas.”