09 Agosto 2011

A flor e o vento (...)





Como se tudo não significasse nada, as mãos do velhote engasgaram; era um tipo de tudo niilista, ou um nada simbólico e ilustrativo. Um nada de fato. Mas o fato – e a sua impropriedade – não tinha vazão no espaço oco onde se dava. Poucos naquela mesa se preocupavam com a enfadonha tristeza alheia. Poucos? Nenhum, diria o próprio sujeito triste com seu bigode branco de tamanho exagerado, e sua cabeça de escassos fios grisalhos, e sua boca de uns restantes dentes amarelos. É isso mesmo que está sendo construído com essa narração abominável; e defasada. Todos tinham uma pança bojuda e estavam gastos depois de uso abusivo de vida. Mas, não muito aos avessos disso, embicando um cadinho nas mangas da situação, além dos velhos gordos, víamos muitas sensações ao extremo. Tristezas a mil graus, alegrias mil, tentações mil, sufocos mil, raivas mil e tudo o mais.
Se não engasgaram, tropicaram, aquelas mãos enrugadas e enervadas. O velhote era um tanto de pele sobejada presa aos ossos. Dali talvez a alma valesse algo, já que a física transmuta tudo negando a existência do tempo, na concepção de quem busca ver com olhos fechados. O velhote perdeu a aposta naquela mesa de pôquer. Perdeu para uns amigos. O problema não era pagar, mas perder. A tristeza da derrota não era, por sua vez, problema algum também. A derrota, no entanto, tal qual imã, atraiu preocupações que andavam dadas com lembranças das mais terríveis. O velhote mudou o semblante. Resolveu sair da folia de cartadas e uísque, mulheres na cozinha, e gozações cruéis que os amigos se permitem.  
Noite fresca. Céu estrelado. Desarregaçou as mangas do suéter, pegou a boina e partiu. Como um andarilho solitário despertou-lhe filosofias existenciais. Questões simples supuseram-se no pensar como mortalidade do ser humano e a validez do amor puro. Todavia, ao ver um uno preto, quatro portas, esfumaçado por dentro e cheio de jovens malucos, cruzar a vidência de seus passos á sua frente, desferiu em si uma carga de pensamentos infelizes que traziam à tona suas limitações.
Sentou-se no degrau de uma casa qualquer. Queria cutucar a lua. Era um momento interessante para astralizar. Os dias dourados de sua vida ressurgiram no salão da memória e assim sabemos que o velhote não era infeliz realmente.
Ele ouviu passos. Uma mulher andava em sua direção. Vestia uma blusa fina sobre outra blusa, meia-calças de lã e sapatos de cano longo. Usava boina e um piercing no nariz. Moça bem colorida sobre o preto abismal, vestia-se bem. Exaltava a virtude da beleza com um batom vermelho vivo e olhos certeiros da cor dos vagalumes. Andava com as mãos no bolso, rapidamente retirou-as segurando uma chave ao aproximar-se do velhote. Ela o cumprimentou parando a sua frente um tanto acabrunhada com a situação. Era tarde da noite e ali, sem dúvidas, sua casa, atrás dos mesmos degraus.
O velhote sacana se demorou um pouco para aparentar ter percebido, total encenação; queria ver o modo de agir da estranha. A moça, um pouco assustada, disfarçando bem, perguntou “tudo certo?” Ele sorriu como se ainda fosse um sedutor como que alimentando seu ego perdido na nobreza das experiências. Não fosse por um miado de gato, o velhote não teria se dado conta do quão incomum era aquela cena. E conhecedor de vidas, ousou aproveitar o ensejo. Olhando-a:
- Tudo bem, jovem. Ah, você mora aqui! Resolvi parar pra descansar no meu caminho de casa. Me ajuda a levantar, por favor – e quando ela pegou a mão do velhote para puxá-lo e ele, erguendo-se, passou com o rosto próximo dela, falou: - mmmm, você parece cansada. Mas não é só cansaço, é? Está tudo bem contigo? Se quiser, a gente pode conversar, trocar uma idéia. Me convida pra entrar... afinal, um velho como eu não poderia representar nada mais grave do que uma companhia pra sua noite que parece ter sido... mmm... desafortunada?
- Bom, você não é do tipo malandro, é? – quis saber a moça. O velhote quase se sentiu desarmonizado, pois a moça falava rápido demais e sorria demais, parecia abobada, desconexa de sua beleza antes apresentada na inexpressão dos primeiros olhares resguardados. Mas sua sabedoria não fraquejava. Ele logo notou que a pressa ao falar também era nervosismo. O convite mexera com a moça. – Olha, senhor... – continuou ela.



- Pode me chamar de você. Aliás, me chama de velhote, é meu apelido! – ele disse rindo e a moça sorriu também.
- Ok velhote. Adorei esse nome pra você. Você bebe? Vai ter que beber pra me acompanhar, porquê eu tou bêbada e quero uma companhia que seja da minha ala.
- Eu bebo. Já bebi uísque na casa dos meus amigos. Mas uma boquinha assim não custa nada, né? – disse o velhote.
- Seus amigos são velhos como você, velhote? – a moça quis saber, fazendo deboche amistoso e abrindo a porta – Ta frio aqui, você ia morrer congelado se ficasse sentado daquele jeito. Já tava até duro pra levantar!
- É verdade, talvez eu morresse mesmo. Nada incomum, já que sou velho, né? O que vamos beber, jovem?
- Vamo ver. Tem vinho, duas cervejas...
- Deixa as cervejas pro final – interpelou-a o velhote.
- Ok, cerveja pro final... tem vinho, meia garrafa ainda, e aquele licor de chocolate – falou a moça, mexendo em mais uns potes na geladeira.
- Belas pernas! – o velho disse, abaixando-se um pouco para ver melhor – quero um licor nesse copo aqui. Tem gelo? Ali? Eu mesmo pego.
- hahaha. Você é malandrinho mesmo! Vamo pra sala, lá tem um sofá ótimo – a moça disse.
- Beleza! – sentaram-se no mesmo sofá, o grande que ficava de frente para a televisão. Havia uma mesinha de vidro à frente onde o velhote apoiou as pernas esticadas. O cômodo estava bem decorado com desenhos e fotografias, e umas roupas velhas, muitas calças, algo pós-moderno e dinâmico, mas enfadonho pelo excesso de preto e branco; demonstrava algum bom gosto – Posso saber seu nome? – o velhote perguntou.
- hahaha. Esse é o começo de uma cantada? Cantada da sua época? – a moça perguntou sorrindo, mais confiante de si e mais centrada do que quando à porta de sua casa, menos esbaforida e demasiado sarcástica.
- Antes fosse. Mas só ando sem criatividade mesmo. Ah, você tem nome aliás, hehe? – insistiu o velhote.
- Ta bom, desculpaaa! Não queria ofender...
- Eu sei. Tem alguma coisa que te incomoda agora, né? Essa é a expressão pura de uma tentativa de esconder os problemas, digo, tentar maltratar os outros para se sentir bem superando seus problemas mais complexos do um gozo imediato com gracejos infundados... é uma defesa comum da nossa mente.
- Você não é bobo! – disse a moça.
- Sou, mas finjo que não, hehe.
- Janaína!
- O problema? – perguntou o velhote fazendo jeito de um leve espanto.
- Não, é meu nome! Seu bobo! – disse a moça, aliás, Janaína, dando um tapinha fraquinho no braço do velhote.
- Eu sei, fiz por querer.
- Eu sei, hehe – ela respondeu olhando para seu copo.
- Você mora sozinha? – o velhote quis saber.
- Você tem uma barriga bem avantajada!
- Você acha? Eu sempre digo que isso é a prova da experiência.
- Não moro, mas agora to sozinha. Minha amiga viajou de férias pra terra dela e me abandonou aqui.
- Você sempre gosta de falar duas coisas ao mesmo tempo sem introdução do assunto que tá por vir?
- Nem sempre.
- Entendo.
- Ta bom...
- Vai me falar o que aconteceu? – disse o velhote.
- Vou.
- Mas, agora é minha vez de tergiversar. Não tem nenhum baseado aqui, minha querida?
- Tem, rsrs.
- ... – os dois trocaram olhares rapidamente. Janaína se levantou e foi ao quarto. Voltou com um baseado bolado na mão e um isqueiro.
- Toma, acende pra gente, camarada – ela falou.
- Claro. Conte-me! – o velhote disse enquanto ela lubrificava a garganta.
- O problema não é de agora.
- É problema amoroso?
- É! Não gosto mais tanto do meu namorado.
- Quantos anos você tem?
- 23. E vocêee?
- 67 janeiros.
- hahaha.
- E...
- Não gosto muito dele. E, depois, conheci outro carinha. Ele começou a... meio que... se declarar pra mim pela internet.
- Você conheceu ele pela internet?
- Não. Eu saí com uma amiga há umas duas semanas. Conheci ele lá. Não rolou nada. Mas depois ele ficou falando coisas pra mim pela internet. Nunca mais vi ele pessoalmente. Parece que ele quer alguma coisa, mas não finaliza nada.
- Engraçado isso. Ele é do tipo amoroso?
- Parece. Mas lembro que gostei dele pessoalmente. E tenho pensado mais ainda. Meu namorado anda chato demais.
- A vida é complicada, você sabe disso já. Eu poderia discutir um monte de pensamentos que já tive, mas hoje tenho mesmo são algumas conclusões. Sobre isso vou te dizer uma coisa: foda mais do que só com seu namorado atual; faça mais coisas que diversifiquem o fardo natural do cotidiano; e o mais importante, não se limite à mitos! Gostar do carinha novo é natural, ainda mais porque você nem convive com ele e aí nasce o mito! Talvez ele seja mesmo um baita dum tímido ou talvez ele tenha razões pra não querer chegar perto de você, ou se aproximar, declarar-se abertamente, enfim... converse com ele. Procure-o. Dê sinais do que você quer e ele saberá reagir como todo macho de verdade. Só pelo seu olhar, vi que ele não é tonto. Você não se daria com um babaca de alma fraca.
- Assim você enche o seu próprio ego, né, sabichão? – disse a moça, sorrindo de lado e mexendo no cabelo.
- Esse baseado é muito bom.
- Você não vai morrer né?
- Não.
- Você me abraça?
- Claro, pequena.