08 Agosto 2011

“Incantamentu

(O texto fica completo se for lido em conjunto com a audição da música) 



Explodir ou a necessidade do caos!
           
Numa aula de latim, Josué lia alguns versos de Ovídio. Seus sentimentos estavam frios. Até o dia anterior ele via a si próprio como um vagabundo, ou talvez um sujeito com tempo de sobra para boemia; andava a esmo, de olhos em olhos alheios venerando Baco constante e incondicionalmente. Na aula, sua primeira atividade séria, por assim dizer – séria! É um comentário para rir –, na aula Josué pensava nos encontros astronômicos que teve ao longo do mês passado no desfrute das saborosas férias tão graciosamente temperadas com os charmes singulares daquelas ocasiões avulsas.
Lia vagarosamente os versos do poeta sem perder o embalo: efeito de ressaca colossal, de quando a alma parece afrouxar as correntes que a ligam ao corpo e o corpo, fadigado de folia intensa, despreocupa-se do mundo. Lia. E o espaço restante na cabeça causava-lhe uns pensares que outrora o constrangeria. “Quantos amores eu pude ter?” O verbo “poder” conjugado no passado abraçado com “amor” no plural lhe causou alguma angústia sombria, melancólica. Um buraco em seu peito se fazia presente, qualquer interlocutor com a habilidade sensata de observação das expressões humanas notaria fagulhas de cansaço e desterro no semblante de Josué. Este não pensava assim, por sua vez; pensava objetivamente nas moças que havia conhecido; mulheres tão mulheres, personalidades diversas, como num aumento quase radical de notas de uma temática de Bach virtuosamente construída nas cordas de um violino em Ré, quase radical, mas não totalmente radical, uma temática linda, profunda, impactante, despertando a explosão de todos os sentidos sobre todos os sentidos, explicando a palavra sinestesia; pensava apenas “quantos amores eu puder ter?” E a melancolia o abobava por dentro.        
 A aula terminou. Seus olhos semicerrados na mente, mais introvertida àquelas alturas do dia, absorvendo-o e alienando-o a si naqueles minutos significavam o buraco existencial, ou um aperto irracional no coração.  Até mesmo as cores coloridas e vivazes se faziam gélidas em preto e branco.
Contudo, assim como é linda a explosão de uma bomba nuclear deveras destrutiva, qual persona ainda não deprimida seria incapaz de esboçar algum sorriso? Laís cutucou Josué convidando-o para almoçarem juntos. Há dias não se viam. Ele, pois então, sorriu e aceitou o convite. Laís foi atingida pela intensidade dos olhos de Josué e percebeu qualquer coisa incômoda, algo meio atraente, meio “encabulante”.
Após a conversa ter sido posta em dia, mastigada, cuspida para o canto da mesa cheia de salivas azedas, na despedida Laís chamou-o para uma festa de aniversário de um amigo dela. Recém chegado das férias, jogado no tempo como o vento, Josué confirmou sua presença. Abraços apertados, dois beijinhos, “até mais ver”.

Seduzir

O que faz despertar uma arritmia no coração quando os olhos encontram seu foco há muito desconhecido, mas esperado? Seria causa a luz divinal que faz a alma chorar (de uma alegria inefável)? Ou, causa da pura forma, em essência, e perfeita que se encaixa no ângulo natural das retinas? Seria um conjunto complexo de ações numa bolha de espaço-tempo que, não mais, nem menos do que a perfeição exata, acontecesse num instante único na existência do ser neste universo absolutamente fantástico?
Josué esperava uma arritmia dessas, como tivera dois anos atrás pela antiga madona maldosa, quem lhe ensinara o sentido da sensação de amor e paixão, e que, por ser tão distinta da razão, fundara o buraco existencial nele. Ao entrar no apartamento se dirigiu a alguns conhecidos de longe, foi apresentado ao resto do pessoal, cumprimentando-os. Tomou uma cerveja nas mãos. Ao lado de Laís se incluiu na conversa da roda.
Aos poucos, emocionalmente estabilizado, com os olhos de desterro, mas mais ativo que aquele meio-dia, sem fraquejo seus olhos tombavam para o rosto de Janaína, amiga da prima de Laís. A moça percebeu e inicialmente demonstrou sinais de apreço por ele. Um bolero de olhares e gestos começara; aos olhos dos cupidos intrometidos e curiosos aqueles dois corpos, iluminados com uma luz semelhante e diferente das dos demais presentes no cenário, pareciam fazer qualquer dança sexual natural do mundo animal; pareciam pavões, onde o macho exibe sua cauda esplendorosa e, na postura imponente, sem palavras, nem meia palavras, anseia que a fêmea, poderosa pelo simples fato de ser fêmea, tenha a decisão de escolhê-lo. Nos humanos isso acontece, mas somos ignorantes de nós mesmos na maioria das vezes; na extrema maioria das vezes.
Os olhos de Josué cheiravam rosas. Sua pele via nuvens ao pôr do sol. As pernas esticadas e os braços abertos acalentavam a pequena forma sorridente. As mãos de Janaína eram as mais belas já vistas algum dia! Mãos com unhas de vermelho, olhos astutos, mas sinceros. Lábios num formato próprio, de linhagem de pessoas maiores. A alma, sentida no coração, enxugava os temores de Josué. Não, não havia arritmia. Não era aquilo o surgimento de um amor inevitável.
              
Desiludir

Josué percebeu que estava mitificando a personagem que o atraia, que o atraia por completo naquela festa. Pegou a sexta long neck de cerveja e se dirigiu para a prima de Laís que conversava com Janaína. Começaram a trocar dados pessoais como em qualquer conversa tão clichê quanto o é a alvorada de cada dia; clichê e normal, mas sempre única. Nada estranho acontecia, embora cada gesto significasse uma novidade. Josué era o único a aparentar interesse sexualizado. Mas nem isso tão bem apresentado. Os disfarces das personas são hábeis no mundo social, demasiado hábeis – talvez a força motriz que nos faça criar enganações seja o que nos faz querer viver tanto.
A conversa, apesar de ser comum, fluía com leveza. Aos poucos Josué, já se sentindo alto, quase bêbado, demonstrava interesse por Janaína. Mas, justamente por estar bêbado, e por ter criado a idéia de que aquela mulher era incrivelmente bela e divina, ele não queria dizer nada relacionado a seus sentimentos... enfim, transmitir sua melancolia para ela. Suas brincadeiras começaram a parecer vazias, apesar de engraçadas, e suas falas se afrouxaram até o instante fatal do silêncio máximo.
            Chegou o momento da despedida. Tchau! Foi um adeus cheiroso, mas triste para Josué. Seu desamor o impediu de querer cobrar amor. Desiludir é ter fé na verdade e apreciá-la; é crer na verdade e é também querer gozar com a verdade. Aquele momento sua alma soube aproveitar desiludindo-o e se harmonizando.   

Maravilhar

Nada incomum, na pior das hipóteses! Josué levantou exalando felicidade no dia seguinte. Suas reflexões oníricas desmantelaram os problemas da alma mui pesados até então. Sentia-se limpo!
Uma nova espécie de sentimento surgira. O encantamento. Algo bonito, algo também inefável. Algo humano, mas de um lugar paralelo aos lugares da perdição. Era uma paixão calma que tremula com as ondulações da vida, mas não vaga para todos os cantos sem rumo; e era fogo do amor sem o amor incondicional. Era uma espera pela beleza existente, a beleza representada por Janaína, e também o entendimento de que Janaína continuaria no mundo livre como quisesse. Ele almejava mais novamente vê-la, mas apenas quando ela quisesse vê-lo. Ele não tinha receio de se declarar abertamente em prol do amor, mas não lhe apetecia um amor forçosamente inventado. Josué estava feliz por não ter a presença de quem esperava ter em qualquer momento de sua própria vida, em qualquer tempo, pelo menos mais uma vez, ou quantas vezes o universo quisesse acontecer.


Fim.