29 Agosto 2011

Sem data


Uma trilha sonora de western flutuando no ar por todo o salão do boteco. A cena: mui tosca! Pessoas sentadas. Velhos espalhados, uns no balcão e outros nas mesas. Umas pessoas desleixadas com a aparência. Uns que se sentiam com problemas. Outros que se viam iludidas com as tênues e curtas idéias que ribombam com força em certas fases da vida. O relógio na parede, acima do espelho, marcava quase uma da madrugada. Rubens e Vera travaram a língua de modo que o quase minuto inteiro se disfarçava de horas. Se um mosquito sobrevoasse ali naquele instante e pudesse ouvir os pensamentos sussurrados de ambos ele teria certeza de que o momento estava tedioso.

A questão da música iria acompanhá-los ao correr da madrugada. Se nós agora estivéssemos na sala onde entidades vibrantes tecem destinos veríamos coisas interessantes: aquele instante no silêncio da mesa não tinha importância; o tédio era preâmbulo de muito movimento, pois acumulava vontades que em breve explodiriam; choveria e ninguém se sentiria incomodado; ventaria e teriam frio; um abrigo casual seria encontrado; amor seria desabrochado ao pé de uma árvore secular; ao nascer do sol eles ficariam com muito sono e iriam embora para a casa de Rubens, pois ele mora sozinho, e queriam ficar à vontade.

Mas a música que bem poderia ser um Western qualquer continuava. Não, senhores, não era exatamente um som bang-bang típico. Mosca nenhuma voava. O tédio não era tédio por si só. O bar não estava cheio de medíocres. Ninguém lia o pensamento de ninguém. O peso do próprio corpo à uma hora da madrugada gera algumas aflições bem carnais e não totalmente humanas, de forças maiores do que tão somente querer ou pensar em querer. O momento que faz segundos parecerem horas nem poderia ser pensado assim, tão racionalizado, em termos de... horas. Esse tal momento não se baseia no tempo contado, é algo similar à massinha de modelar; tem forma assim como não tem – depende das mãos que.

Foi então que Rubens olhou para Vera. Segundo a corda do destino, restavam sete minutos para eles saírem dali e desfrutarem da madrugada com toda a liberdade que lhes estava encaminhada. Não era western a música. Mas a idéia de possivelmente ser balançava o ego de Vera. Rocky Racoon, uma historieta bem contada. Rubens tinha dúvidas quanto aos seus sentimentos.

A questão toda, tendo a música como estopim do problema, problema filosófico, diga-se de passagem, não tinha tanta importância também. Para fazer entender a questão, preciso deixar claro, antes de tudo, que não há importância numa linha coerente dos acontecimentos. Os acontecimentos não precisam de cronologia. Não exijo um laço lógico entre os fatos. O que importa, como num conto de Joyce, ou uma novela qualquer, é o instante observado.

Rubens estava escorado na cadeira, seu cotovelo na mesa e a mão no rosto apoiando-o. Vera tinha os braços cruzados sobre a mesa. Estavam um de frente ao outro. Ele olhou-a. Um laço vermelho prendia seu cabelo. Ela ia começar a dizer algo, mas provavelmente muito irrelevante, pois nem foi capaz de encher os pulmões pras palavras saírem com empolgação.

Rubens tomou mais um gole de cerveja. “Todo mundo se maquia demais. Desconfio que nós, humanos, sejamos inteiramente plásticos quanto aos sentimentos. Sentir amor não é real. Nós nos iludimos para crer que seja real. Mas não é! Tampouco amizade ou algo do tipo. Acho que sentimos sim algo como medo e alegria. Algo que machuca ou pode machuca e algo que agrada ou pode agradar. Mas a gente tem um super computador na cabeça que torna esses dados, ruim ou bom, em algo mais complexo do que é. Não sei se realmente amo você ou gosto de você. Eu criei toda uma rede de situações que me agradam quando estou em sua companhia ou crio meus atos para você, para nós, para pessoas próximas a nós. Mas o que tem a ver a meia com a calça? É tudo ilusão. Falo isso por que eu andei pensando. No budismo, por exemplo, o grande segredo está em conseguir se desprender de tudo, fugir de tudo, libertar-se, encontrar-se na união toda de todas as coisas que são uma só. Mas eu só estou dizendo isso não por que não quero mais você. Pelo contrário. A gente precisa dar uma levantada. Vamos nos desprender um pouco das coisas que nos afetam para sermos mais felizes. Vamos fazer aula de dança, aprender a tocar algum instrumento musical, fazer teatro, canto, saraus de poesia, nadar nu no pacífico, subir montanhas e gritar bem alto. Eu quero ter a liberdade de transar com outras mulheres! A pressão dos limites se somatizam negativamente no meu lombo...”

1 dizeres:

Anônimo disse...

Mais de 2 meses sem postar :( aaaahhh