06 Dezembro 2011

O jóven das moedinhas do chão


Sentado em sua poltrona no ônibus Pablo voltava para casa. Tentou cochilar um pouco fechando os olhos e tombando a cabeça para o lado. Ao seu lado estava uma mulher não muito bonita, mas não necessariamente feia, nem gostosa, mas tampouco desgostosa, que despertava em Pablo uma excitação sexual fraquejada por umas e outras veleidades. Ele a observou, ela era uma gigante com pés enormes e unhas pintadas de vermelho, coxas grossas, peitos grandes sob a blusinha de seda com estampa de imagens disformes. Não era bem uma donzela.

Muitas pessoas entraram no ônibus. Por conta das cadeiras todas ocupadas, alguns passageiros ficaram em pé. Ao lado do jovem situou-se uma senhorita esbelta, com cabelo pintado de loiro, típica mocinha da cidade badalada com seu rebolado e com seus aparelhos nos dentes – sob lábios engrossados por pensamentos provocantes. O jovem, às vezes astuto, ofereceu-se para segurar a bolsa da moça e assim se o fato se deu. Ele notou que a moça o achou simpático e interessante; ela, de um jeito peculiar, começou a aproximar-se psicologicamente dele encostando-se em seu ombro, e às vezes – Pablo sentiu – ela mexia em seu cabelo.

O ônibus começou a ficar lotado no próximo ponto. E no ponto seguinte mais pessoas entraram. O motorista queria ver bagunça, enquanto afagava a consciência ao pensar que estava cumprindo seu ordenado com louvor ao parar em todos os pontos sem deixar ninguém para trás! Todos os pontos! Com louvor! (Auto-sabotagem é uma doença típica das pessoas; outra, é expressar raiva com atos, com o uso da criatividade, e não com palavras, afetando outras pessoas! Qualquer doença, assim tão mesquinha, no entanto, poderia ser a demonstração evasiva de que ser humano também é saber-se inseguro, sentir-se sozinho e exigir atenção para minimizar seqüelas.

O motorista não se importava. O ônibus continuava a ser carregado de pessoas. Pablo segurava a bolsa da jovem senhorita, que estava esmagada entre brutamontes e gordas caretudas, as barras de apoio, e seu ombro; ele segurava a bolsa de uma velha senhora de sessenta anos ou mais também, além de uma mochila vermelha e fedida dum estudante pré-adolescente, educado, mas emporcalhado.

Todo o dia poderia se fazer em torno de um acontecimento. Pablo pensava em bolinar com a jovem senhorita, que era possivelmente da mesma idade, mas isso ainda estava fora de cogitação devido à imobilidade passional. Pablo pensava em como seria foder a mulher mais velha do que ele e cavalona ao seu lado que tentava dormir e as vezes roçava o quadril em sua perna, fazendo-o ver seus pés gigantes com unhas vermelhas e, até certo ponto, excitantes.

Pablo pensava em doar sua poltrona para a velha senhora arranjada e toda torta que estava a sua frente e de quem ele guardava a bolsa. Então reapareceu o problema social da super lotação dos ônibus públicos das grandes cidades quando o motorista parou num outro ponto do trajeto. O garoto juvenil não fez uma expressão de rejeição e talvez apenas repetisse algumas idéias fornecidas na escola por pessoas mais velhas: “porque as pessoas não esperam outro ônibus?” Como resposta a velha senhora falou: “o motorista quem não deveria parar!”

Quem estava errado e quem estava certo? Pablo queria saber. Ele apenas observava. Seu pequeno gesto de auxílio em estocar as bolsas de alguns estranhos e livrar-lhes por algum momento do peso delas sugeria-lhe calmaria. Pablo pensou o seguinte... “A velha senhora viveu certamente numa época nada parecida com esta do juvenil. Ela atravessou uma ditadura militar, já viu mortes devido à idade, possivelmente a morte de pessoas bem próximas, alguns familiares, e a senhora tem uma experiência real de vida incomparavelmente maior do que a experiência do garoto. Ela concedeu ao curto diálogo a idéia de um governo decidir o que é melhor: o governo seria o motorista que, com bom senso e o devido respeito pelos passageiros que já estão no ônibus há muito tempo, teria a obrigação de não parar mais em nenhum ponto de ônibus enquanto não liberasse, neste, mais espaço. Mas nenhum passageiro reclamou essa possibilidade como direito! Portanto, como o motorista pode tomar isso como atitude? Ele apenas segue ordens, enfim! Por outro lado, o garoto subverteu a lógica da produção – ou do serviço que visa o lucro – e atingiu o fulcro do sentido da necessidade de algo na vida, ele entendeu que um serviço ou um produto só existe para que pessoas possam usufruir benefícios, e portanto, o ônibus só deveria parar em pontos de ônibus enquanto houvesse pessoas para utilizá-lo, e pagar pelo serviço de transporte. O garoto pensou numa solução assim: as próprias pessoas que esperam no ponto de ônibus não entram em ônibus lotados, esperam o próximo e assim, alem de não incomodarem os passageiros atuais, têm eles próprios mais conforto! O motorista tomar uma atitude ou os usuários do serviço para resolver o problema do desconforto nos ônibus públicos? De quem é a responsabilidade?”

Com estranhamento, Pablo notou algo interessante. As pessoas esmagadas na frente do ônibus, logo à entrada, elas mesmas quem deveriam estar ultrajadas pelo aparente mal-trato, riam da situação. Os passageiros do ônibus não se esforçariam para impedir a entrada de outras pessoas, não pretendiam formar inimigos, nem ao menos pensar em si mesmos como causa de um conflito.

Depois dum longo túnel o ônibus começou a se esvaziar. A cavalona desceu. A senhorita jovem deixou o numero de telefone para Pablo depois duma breve conversa introdutória na troca de conhecimentos ativos. Ao final do trajeto que durou cerca de uma hora e meia, Pablo desceu do ônibus. Quando pisou no asfalto avistou uma moedinha plúmbea de cinco centavos, pegou-a rapidamente. Ergueu-se, subiu a calçada e tudo parecia-lhe errado na cabeleira. Parou, respirou, pensou, resolveu pegar dois filmes e seguir rumo para casa, fazer uma oferenda e relaxar a alma.